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Vídeo: "Mãe é capaz de tudo" - Desespero de uma mãe para salvar o filho que se afogava

Data: domingo, 7 de julho de 2013 | Horário: 09:12

Fotos: Tiago Brandão/AE
Gabriel, 7 anos, escorregou, caiu num poço profundo e se afogava. Maria, que não sabia nadar, saltou em desespero.

Maria deu a luz à Gabriel duas vezes. Na primeira, sete anos atrás, num hospital de Franca (SP), o moleque espevitado veio ao mundo com seu irmão gêmeo, Daniel.

Na segunda, Maria – a sapateira Maria Jerônima Campos, 36 anos – presenteou o filho com uma nova vida colocando em risco a sua própria. Ela se atirou num poço de 12 metros quadrados de boca por quatro metros de profundidade e arrancou de lá o seu menino, que se afogava, batia as pernas, levantava os braços e engolia parte da água infecta. Maria não sabe nadar. Pesa pelo menos 15 quilos a mais do que os especialistas achariam ideal para seu corpo. Não gosta de piscina, nunca pulou num rio, jamais viu ou roçou os pés no mar. Mas todos esses obstáculos supostamente intransponíveis viraram pó diante da explosão de um dos mais belos e rústicos sentimentos femininos: o instinto de proteção materno.

Pareceu uma eternidade, mas o segundo parto de Gabriel durou escassos 45 segundos. No final da manhã da segunda-feira 22, Maria enchia várias garrafas pet numa bica ao lado do poço, que fica em um prédio abandonado no bairro São José, em Franca. Os temporais que castigaram a cidade nos últimos dias danificaram quatro máquinas de captação e, por isso, as torneiras estavam secas desde o final de semana. Na casa tosca que ela divide com Gabriel, Daniel e Pedro, nove anos, o filho mais velho, pratos e panelas sujas entupiam a pia da cozinha e não havia mais água para cozinhar e tomar banho. Maria conversava com o repórter fotográfico Tiago Brandão, do jornal Comércio da Franca, que chegara minutos antes. Ela aceitou ser retratada para uma reportagem sobre a falta de água. Brandão fez 15 imagens de sua personagem com as garrafas na bica e agradeceu. Enquanto isso, na beira do poço, os dois irmãos gêmeos tentavam pegar peixes colocados no poço por moradores do bairro para tentar evitar a proliferação do mosquito transmissor da dengue naquelas águas. Gabriel chegou a capturar um deles. Seu instrumento de farra era uma garrafa pet cortada ao meio e amarrada a um barbante.

Faltavam dez minutos para o meio-dia quando Maria, que se preparava para dizer seu nome completo ao repórter fotográfico, ouviu o berro do filho Daniel. “Mãe, o Gabriel caiu! Caiu, caiu na água!” O menino já tinha afundado pela primeira vez. De volta à superfície, jogou o braço esquerdo para o alto e abriu a boca. Os lábios estavam arqueados, projetados para frente, o conjunto de detalhes compondo no rosto a expressão inconfundível de quem busca ar a qualquer custo. Maria só teve tempo de gritar duas vezes “socorro” e “meu filho”. Não via mais os vergalhões enferrujados e tomados de lodo que fecham parte da borda, os ferros apontados para cima e cravados no fundo do poço, a água contaminada e com aspecto repugnante, não via nada. Só enxergava Gabriel. Ela pulou com tudo: as roupas, a sandália, a coragem, a valentia de mãe. E agarrou o seu menino.

Os dois afundaram levemente e voltaram à tona um pouco mais próximos da beira do poço. A sorte estava ajudando. Maria alcançou com a mão esquerda o vergalhão mais próximo, o lodo fez sua mão escapar, mas no segundo bote ela conseguiu firmeza. O motorista do jornal, Wilson Batista Moura, pegou o menino e o colocou deitado no chão. “Eu gritava para ela soltar o garoto porque eu já o segurava. Mas ela, atordoada, ainda permaneceu agarrada ao garoto por alguns segundos”, conta Moura. Com a ajuda de um senhor que tinha ido buscar água na bica, o motorista puxou Maria para solo firme. Deitado de lado, com alguns arranhões no rosto e no pescoço, provocados pelas barras de ferro, Gabriel fechou os olhos, tossiu e colocou para fora um pouco d’água. E, logo em seguida, retomou os sentidos.

Os 45 segundos de agonia de mãe e filho pareceram eternos também para o trabalho do repórter fotográfico Brandão. Ele conseguiu fazer 40 fotos de toda a seqüência, quase uma por segundo. As imagens correram o Brasil e ganharam o mundo. Brandão foi criticado por ter pensado em salvar a notícia em vez do menino. “Não foi assim. Eu não sei nadar, sou um martelo dentro d’água. Seríamos três a necessitar de ajuda. Por isso chamei o motorista”, explica ele. “O Wilson também pensou em pular, mas percebeu que ela se aproximava da borda e ficou para pegar o menino”, completa ele.

A mãe não se acha uma heroína. “A gente faz tudo pelos filhos, né? Eu me mato para criar essas crianças”, diz ela. A metáfora é forte, mas não imprópria. Por outros motivos, talvez o mais correto fosse chamá-la de milagrosa. Maria atravessa os dias com R$ 295 mensais. Tira R$ 120 para o aluguel, gasta R$ 60 em remédios para o filho mais velho e opera a mágica da sobrevivência com o resto. A passagem de Gabriel pelo pronto-socorro foi rápida. A água não chegou aos pulmões do garoto e o médico receitou apenas um antibiótico para evitar infecções. Maria tinha feito um bom trabalho. Ao sair do hospital, Gabriel expressou a pureza da infância com uma pergunta comovente e uma afirmação arrebatadora: “Será que a gente só se afoga ou morre de verdade se cair lá dentro? Eu não gosto de morrer não.” Maria daria tudo para impedir isso. Até a vida.


Fonte: Isto É

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