'Não sabia o que colocava no mundo', diz mãe de suspeito de estupro no PI

Quase 20 dias após o crime bárbaro que chocou a pequena cidade de Castelo do Piauí, Norte do estado, a atmosfera ainda é de comoção, revolta e medo. 

Na cidade que tem uma população estimada de 18.466 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a tarde do dia 27 de maio teve um desfecho trágico para quatro amigas que saíram para fotografar no Morro do Garrote – local onde se tem uma visão panorâmica do município.

Após serem agredidas e violentadas, as meninas foram arremessadas do alto do penhasco com cerca de 10 metros de altura. Uma das vítimas, Danielly Rodrigues, de 17 anos, morreu no dia 7.

Ela teve esmagamento da face, lesões pelo pescoço e tórax. Das três sobreviventes, uma ainda está internada Hospital de Urgência de Teresina (HUT), e, segundo os médicos, não corre risco de morte. As outras duas tiveram alta e estão na casa de familiares na capital.

Cinco pessoas são suspeitas da série de atrocidades cometidas contra as meninas, que têm entre 15 e 17 anos. Um traficante de 40 anos, que estava foragido da Justiça, foi preso sob suspeita de ser o mentor da barbárie. Entre os investigados, estão quatro adolescentes, também entre 15 e 17 anos, que foram apreendidos horas após o crime. Dois deles confessaram.

Em comum, eles têm passagens por atos infracionais, segundo o Conselho Tutelar e a Delegacia de Polícia da cidade Castelo do Piauí. Foram registradas pelo menos 23 ocorrências contra três dos rapazes, informou o delegado Laércio Evangelista.

Contra eles pesam denúncias de arrombamentos, roubos e assaltos. Dois já chegaram a passar 45 dias internados no Centro Educacional Masculino (CEM) em Teresina. O histórico de um dos adolescentes suspeitos não foi confirmado. Apenas um dos menores ainda frequentava a escola, mas de forma esporádica. Todos são de famílias com problemas, cujos pais estão desempregados ou consomem álcool em excesso e outras drogas.

O G1 voltou à cidade de Castelo e conseguiu falar com alguns familiares e professores dos adolescentes. Os nomes marcados com asteriscos foram trocados para preservar as identidades dos adolescentes. Uso de drogas

Gabriel*, 17 anos, o mais velho dos quatro jovens, dividia a casa simples com cinco irmãos, o padrasto e a mãe grávida de três meses. Uma irmã de 15 anos também é gestante e mora com o namorado na cidade vizinha de Juazeiro do Piauí, a menos de 30 km de distância. A renda da família é a aposentadoria do irmão mais velho, que tem problemas mentais, e mais R$ 270 do Bolsa Família.

A residência simples fica no bairro Refesa, periferia da cidade. Na sala, um sofá velho, algumas cadeiras de espaguete e a televisão na qual Gabriel gostava de ver filmes e desenhos animados. Era nesse cômodo que ele dormia em uma rede quando a polícia o apreendeu na madrugada seguinte ao crime.

“Eu também estava dormindo, e ele foi me chamar quando a polícia bateu na porta. Perguntei o que ele tinha feito daquela vez. Ele não respondeu. Levaram ele e eu não fui, porque todo mundo estava querendo matar ele”, disse a mãe. O menino já tinha 7 passagens pela polícia.

Eliane*, 35 anos, conta que o filho “se desviou” quando tinha apenas 13 anos de idade. Largou a escola no 3º ano no ensino fundamental. O único documento que tem é a certidão de nascimento que está com as autoridades desde o dia em que foi apreendido. A mãe disse que sabia que ele usava drogas, mas não tinha ideia de como as comprava.

Gabriel, segundo relatos do Conselho Tutelar, teve várias passagens pela polícia por furtos e roubos. Para a mãe que amamentou o filho até os dois anos de idade, o garoto sempre saía de casa dizendo que ia para o “videogame”.

“Eu sabia que ele usava maconha, que fazia coisa errada. Pedia tanto, conversava tanto, mas ele só fingia que ouvia. As irmãs pequenas chamavam de ladrão, e ele brigava com elas.”

Devota de Nossa Senhora do Desterro, Eliane foi uma das mães que aceitou falar com a reportagem. Nem mesmo a fé que ela diz ter em todos os santos diminui o seu sofrimento. Eliane contou que o pai biológico de Gabriel não mora na cidade e, certa vez, negou a benção ao filho e o chamou de ladrão.

“Só vejo mais sofrimento daqui para frente. Me olham com a cara ruim. Não sou culpada, não posso fazer nada. Eu pedi muito a Deus pelas meninas. Eu não sabia o que estava colocando no mundo”, desabafou.

Pedido de internação 3 dias antes do crime
Ismael*, 15 anos, o mais novo do grupo, já respondia a 13 processos na polícia. Ele vivia com os pais e duas, dos três irmãos, em uma das casas da Rua Pedro II, no Centro de Castelo. Por medo, vizinhos não falam nada sobre o rapaz. Visivelmente abatida e constrangida, a mãe se desculpou dizendo que estava de saída. Horas depois, a reportagem voltou ao local e encontrou o pai de Ismael.

A conversa foi travada por entre as brechas do portão. Joaquim* não relatou muito sobre o filho e disse que estava esgotado de “falar com os jornais”. O senhor, de pele clara e olhos marejados, revelou que Ismael fazia muita coisa errada e que, por muitas vezes, o alertou que a “vida não era uma brincadeira”.

“Não errei na educação dele. Não sei se ele está envolvido, mas se tá, alguém vai saber, e ele vai pagar”, falou.

Como quem quisesse encerrar a diálogo, Joaquim sugeriu que a reportagem falasse com a mãe do garoto e levou a equipe até outra casa, que segundo ele, é a moradia oficial da família. “Essa casa a minha irmã deu para nós morarmos”, falou. A cerca de quatro quarteirões ficava a outra residência, local onde Ismael foi apreendido hora depois do crime.

Ao longe, Pâmela* (a mãe) avistou a reportagem e reagiu com agressividade diante da possibilidade de ser entrevistada. Desempregada, ela passa o dia em casa cuidando dos dois filhos pequenos. A renda da família não chega a R$ 900.

Ismael foi matriculado na Unidades Escolar Conêgo Cardoso, mas já estava sem frequentar a escola há mais de um ano. Segundo a diretora, o menino sempre se mostrou agressivo e desobediente e era usuário de drogas. A primeira passagem pela polícia aconteceu quando ele tinha apenas 8 anos.

Os pais eram constantemente chamados no colégio, mas conforme a diretora, algumas vezes a mãe chegou a insinuar que a direção e professores já tinham uma “cisma” com o filho.

O Conselho Tutelar entregou um relatório ao Ministério Público três dias antes do crime solicitando a internação do rapaz. Ele, de acordo com o conselheiro Francisco Alberto, era reincidente na prática de furtos e roubos, inclusive usando armas brancas.

Envolvido no arrombamento à própria escola
Jackson*, 16 anos, era o único dos quatro adolescentes que ainda tinha vínculo com a escola. A última vez em que esteve na sala de aula foi um dia antes do crime, 26 de maio. Aluno de uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA), ele cursava a 4ª série (referente aos 6º e 7º anos no ensino fundamental).

Fonte: G1

GOSTOU? CURTA NOSSA PÁGINA E FAÇA UM COMENTÁRIO!
Compartilhar no G+