"Meu marido engravidou de mim e foi parto normal..."

Helena é mulher, mas nasceu no corpo de um homem. E seu marido, Anderson, é homem, mas nasceu no corpo de uma mulher. Agora que os dois tem um filho, são pai e mãe ao mesmo tempo!

Você leu certo: eu, Helena, engravidei meu marido, Anderson. Parece impossível, mas não é. Explico: sou uma mulher transexual, o que significa que nasci no corpo de homem, mas me sentindo mulher. Tanto que quero fazer cirurgia de mudança de sexo. Já o Anderson é cross dresser. Ele nasceu no corpo de mulher, mas sempre se sentiu masculino e se veste como homem. Ambos ainda temos nossos órgãos reprodutores originais. Por isso, quando começamos a namorar e a ter relações sexuais, o improvável aconteceu. Assim nasceu o Gregório, nosso filho. Complicado, né? Mas ler a história toda pode te ajudar a entender...

Precisei sair de dois armários e abandonei o meu nome de batismo!

A gente diz que sai do armário quando assume que é gay. Fiz isso aos 17 anos, quando contei para a minha mãe que já tinha beijado meninos. Só que, mesmo homossexual assumido, não tinha me encontrado. Continuei num segundo armário. Foi só aos 19, quando saí para trabalhar com saia, blusinha e megahair, que me assumi como mulher transexual. Só porque me assumi transexual depois não significa que “virei” mulher nessa idade. Sempre soube que era diferente, mas isso não era tão óbvio quanto minha atração por homens. Eu admirava minha mãe por ela poder usar vestidos, mas até aí muitos homens gays são curiosos sobre o universo feminino na infância. E, como fui muito reprimido nessa época da minha vida, demorei pra entrar em contato com esse lado.Acho que eu mesma me reprimia porque meu pai me batia sempre que me via com uma boneca. Só que isso não me impediu de experimentar. Aos 15 anos, saí com um rapaz e dei meu primeiro beijo. Não parei mais. Perdi minha virgindade aos 17 e comecei a frequentar boates gays. Foi numa dessas festas que vi vários meninos vestidos como meninas, com vestido e maquiagem. Foi uma revelação. Soube na hora que era aquilo que queria ser. E, quando o fi z, vi que as coisas começavam a fazer sentido. Me olhei no espelho e me senti mais bonita, poderosa e confiante. Era como se eu tivesse mentido pra mim até então e, agora, era mais eu. Não sei se dá pra entender, mas foi isso. E é claro que eu sabia que as pessoas estranhavam, mas, como sempre tive um corpo feminino, muita gente não notava diferença. Quando resolvi revelar meu eu da noite para o dia, minha mãe disse que eu estava ridícula e meu pai não olhou na minha cara. Meus chefes se recusavam a me chamar de Helena, nome com o qual eu mesma me batizei. Me demiti, fui a um cartório pegar uma carteirinha com meu nome social e mudei para uma empresa que respeitava minha escolha. Hoje, são quatro anos tomando hormônios femininos e fazendo acompanhamento psicológico para um dia realizar a operação de mudança de sexo.

Nosso romance era de quebrar qualquer cabeça

Conheci o Anderson em 2013, numa balada. Estava montada como mulher e fui ao banheiro feminino. Quando entrei, vi aquele homem lá dentro e gritei “Ai! O que você está fazendo no banheiro errado?”. Ele chegou pertinho e disse: “Não se preocupa. Sou mulher também”. Mesmo passando por algo parecido, não entendi direito. Só sei que me senti atraída por aquele cara... que não era um cara. Começamos a conversar, disse que eu não era mulher tradicional e viramos amigos. Nossa amizade cresceu e se transformou em algo a mais dois meses depois do primeiro encontro. Isso me assustava. Eu estava gostando de uma mulher? Isso fazia de mim uma transexual lésbica? O Anderson sentia a mesma coisa. Com tantas mulheres no mundo, ele foi gostar logo da que vinha com um bônus? Mesmo com dúvidas, não resistimos e nos beijamos. O sexo veio na sequência e foi uma loucura. Achei que não conseguiria lidar com uma vagina e o Anderson não sabia o que fazer com um pênis. Eu, como mulher, o penetrei. Foi ótimo! A gente rodou e rodou e, no final, transamos mais ou menos como um casal hétero. Somos uma caixinha de surpresas!

Temi que a gravidez afetasse a masculinidade dele. Mas que nada!

Eu e o Anderson fomos morar juntos no começo de 2014. Viver com os meus pais estava complicado, porque eles não lidavam bem com nossas identidades sexuais. A gente não os julga. É difícil entender mesmo. Sempre transamos com camisinha. Só que, em outubro passado, esquecemos a proteção. Uma única vez bastou. Um mês depois, a menstruação do Anderson atrasou e fizemos um teste de farmácia. Deu positivo. Minha nossa! A gente não tinha planejado aquilo e, pra falar a verdade, nenhum dos dois sonhava com um fi lho. Eu achava que acabaria adotando em algum momento da vida, mas era um pensamento distante. Na época, tive medo de que a gravidez afetasse a masculinidade do Anderson. Afinal, barrigão, pré-natal e parto são coisas tipicamente femininas. Mas logo vi que era bobagem. Ele lidou muito bem com a gravidez e seguiu as orientações médicas direitinho. Fomos muito bem tratados no hospital e até minha mãe mudou de atitude. Ela ficou tão feliz com a ideia de um neto que me acompanhou nos exames, deu roupinhas, foi na maternidade... O Gregório nasceu em julho deste ano, saudável e de parto normal. O único problema é a certidão de nascimento dele. Meu nome de batismo consta como o do pai e o do Anderson como o da mãe. Mas a gente ainda vai alterar isso. Agora, nosso objetivo é criar uma criança tolerante e que respeite a diversidade! - Helena Freitas, 26 anos, atendente de telemarketing, Porto Alegre, RS.


Gosto de ser homem, mas nasci mulher!

A forma como me assumi é parecida com a história da Helena. Primeiro entendi que me sentia atraída por mulheres, o que me colocava na categoria “lésbica”. Depois percebi que minha predileção por roupas masculinas era uma identificação forte com o gênero oposto. Foi só aí, aos 17 anos, que comecei a me referir a mim mesmo como Anderson. Não me considero transexual como a Helena porque não quero mudar meu corpo. Por isso, digo que sou cross dresser. Mas você não precisa quebrar muito a cabeça com isso. Eu não quebro. Não ligo muito para esses nomes que a gente se dá nem me incomodo com a forma como as pessoas me chamam. Minha sorte é que meus pais nunca brigaram comigo por eu gostar de brincar com meninos e usar as roupas dos meus irmãos. Tive certeza de que era homossexual aos 15 anos, quando beijei uma menina e gostei. Aos 17, saí de casa para morar com uma namorada. Meu pai só falou que era melhor a filha ser gay do que bandida. Passei a usar o nome social de Anderson porque era “o homem da relação”. Gosto de ter uma figura masculina, mas também de ter um corpo feminino. Não pretendo tomar hormônios nem fazer cirurgia. Quando faço sexo, sou penetrado. Achei que não fosse gostar de pênis, mas o sentimento que me une à Helena torna a relação muito prazerosa.

Amamento e continuo me sentindo homem

O queixo de todas as minhas amigas caiu quando contei que estava grávido. Afinal, elas me viam como lésbica e acharam que eu tinha fi cado louco. Algumas até criticaram e disseram que eu deveria ficar com uma ‘mulher de verdade’, mas se a Helena não é mulher, não sei quem é. Eu a amo e quis muito nosso filho. Além disso, sou desencanado. Nunca me preocupei em esconder a barriga nem tive receio de ir ao médico fazer os exames necessários. E, mesmo grávido, mantive minha aparência masculina. Em vez de comprar roupas de grávida, só precisei de peças de homem mais largas, que não me apertassem. Nem todo mundo lida bem com isso como eu, claro. Me lembro de um dia em que peguei o trem para ir ao hospital e sentei num dos bancos reservados, que só podem ser usados por idosos, deficientes e gestantes. Um senhor disse que eu não podia sentar ali e que devia ceder o lugar para ele. “Sou gestante”, disse. Grosseiro, ele gritou que “Machorra não pode ser mãe!”. Nunca fiquei tão bravo! A gente bateu boca até outra pessoa oferecer o banco pra ele. Cara de pau... Aquele velho do trem não queria acreditar que posso ser mãe, mas digo uma coisa: posse ser mãe e pai ao mesmo tempo! E o fato de amamentar o Gregório não faz com que eu me sinta menos homem, não. Também fui eu quem recebeu licença maternidade para cuidar do nosso fi lho, mas isso não gera estresse em casa. A Helena até sentiu um pouco de inveja da gravidez, mas lida bem com isso. Nós dividimos as tarefas igualmente para ninguém ficar sobrecarregado. Não existem papeis específicos que um ou outro desempenha. A única coisa que pode ser considerada mais feminina no meu caso é o apego que o Gregório tem comigo – e eu com ele. Acho que fiquei mais sentimental e tendo a mimar mais o bebê que a Helena, mas nós dois somos pais muito carinhosos. - Anderson Cunha, 21 anos, o marido da Helena

Identidade sexual dos pais não define a dos filhos

Helena e Anderson são transgêneros. Segundo o psiquiatra Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Identidade de Gênero e Orientação Sexual da USP (Universidade de São Paulo), “transgênero é um termo genérico: um grande receptáculo onde podem ser incluídos desde transexuais, travestis, cross-dressers etc.” explica. Enquanto a Helena pode ser chamada de transexual por querer modificar seu corpo e alterar seu nome social, não é tão simples definir o status do Anderson. “Não dá para afirmar nada sobre o Anderson. Ele pode até ser um transexual que está amadurecendo. Por tudo isso, a avaliação psiquiátrica e psicológica é muito importante antes de mandar qualquer um para a cirurgia” pondera Alexandre.

Segundo ele, os dois têm uma disforia de gênero. Isso não deve ser entendido como doença, mas como uma desconexão entre o sexo da pessoa e o gênero expressado por ela. O psiquiatra ressalta que a identidade sexual dos pais não define a dos filhos. “Uma criança não precisa da rigidez dos papéis de pai e mãe. Nosso desenvolvimento sexual é menos ligado a isso e mais ao carinho que recebemos. O mundo está cheio de modelos nos quais podemos nos espelhar para moldar nossa visão de feminino e masculino.”

Para registrar criança como mãe, mulher transexual deve mudar a própria certidão

A Helena já tem uma carteira de identidade com seu nome social que pode ser usada em consultas médicas ou entrevistas de emprego. Porém, sua certidão de nascimento não foi alterada e seu nome de registro se mantém. Por isso, o nome que consta na certidão do Gregório é o masculino. “O nome social não conta nesses casos. Uma criança deve ser registrada com o nome de registro dos pais” explica Mário Solimenes Filho, advogado especialista em causas LGBT. Para alterar a certidão do Gregório, Helena precisa alterar a sua própria certidão primeiro, sendo reconhecida como transexual. “Os juízes não costumavam permitir a alteração antes da cirurgia de mudança de sexo. Hoje isso é possível, mas depende do juiz.”

Fonte: Sou Mais Eu

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