Cacimbões e poços profundos garantem a produção leiteira

Segundo a Aprolece, mais um ano de seca poderá provocar perdas incalculáveis para a cadeia produtiva bovina.

A estiagem que já atinge o Nordeste por quatro anos é apenas uma das preocupações para os pecuaristas cearenses, principalmente para quem se dedica ao setor leiteiro. Os animais precisam de alimento e de água. Apesar de tudo, não passam sede. À medida que os açudes e barreiros vão secando no Interior, os produtores recorrem a cacimbões e poços profundos. É cada vez maior o número de poços perfurados. Não se tem um levantamento oficial da quantidade, já que a iniciativa da perfuração e reativação de cacimbas e cacimbões ocorre em propriedades particulares.

O problema maior, além deste, está nos custos, principalmente da ração. A maioria está pagando para produzir leite. Essa é a avaliação feita por representantes da Associação dos Produtores de Leite do Ceará (Aprolece). Conforme o presidente da entidade, Cláudio Augusto Teófilo Júnior, os produtores estão cansados e apreensivos. Nos últimos anos, a pressão tem sido constante sobre os médios e grandes criadores. As políticas de governo, em todas as esferas, só amparam quem está enquadrado na agricultura familiar, os pronafianos. Mais um ano de seca poderá provocar perdas incalculáveis para a cadeia produtiva bovina no Ceará que, graças a investimentos da classe, em tecnologia e melhoramento genético, tem destaque no cenário nacional. É a maior do Nordeste.

Uma vaca leiteira precisa consumir pelo menos cem litros de água diariamente; com a escassez que assola o sertão cearense e nordestino como um todo, não resta outra alternativa para encontrá-la a não ser por meio de poços e cacimbões.
Uma vaca leiteira precisa consumir pelo menos cem litros de água diariamente; com a escassez que assola o sertão cearense e nordestino como um todo, não resta outra alternativa para encontrá-la a não ser por meio de poços e cacimbões.

Alguns já pensam em vender também o gado leiteiro para o abate. Vai ser a única alternativa para não se ver milhares de animais mortos, nas beiras das estradas, pela fome e insensibilidade dos governantes. Estão se sentindo abandonados, sufocados, diante dessa crise tão grave, hídrica e econômica, reclama o líder classista.

“Nos últimos 40, 50 anos, investimos pesadamente nas nossas fazendas. Os resultados começaram a surgir nas duas últimas décadas. Mas, na contramão do nosso interesse em tornar o Ceará o maior produtor do Nordeste, além da seca prolongada e da alta do preço dos insumos, provocando o aumento dos custos, a pressão aumenta com os bancos cobrando na porta da gente e inclusive ameaçando de execução das dívidas. O trabalho, a dedicação de uma vida, à pecuária leiteira nunca estiveram tão ameaçados”, destaca.

Além da renegociação das dívidas bancárias, contraídas para levar a pecuária leiteira ao atual status, de quarta maior renda de emprego gerada no Estado, o aumento da compra de leite para o Fome Zero, um programa social do governo federal, para pelo menos 100 mil litros por dia, pode amenizar a situação de colapso enfrentada pelo setor.

Dedicado exclusivamente à bovinocultura leiteira nos últimos dez anos, o pecuarista Alexandre Gontijo entende que, “para não ocorrer o definhamento do rebanho cearense, há apenas duas saídas viáveis: chuvas ou ação governamental”.

Por enquanto, o rebanho dele, 1.800 animais, está produzindo 14 mil litros de leite por dia, mas os prejuízos se acumulam. Ele não fechou ainda a porteira da Fazenda Água Verde, situada em Palmácia, na região do Maciço de Baturité, porque esse tipo de negócio não é igual a uma loja de calçados ou lanchonete. Retornar ao atual patamar se a porteira da fazenda for fechada, vai demorar uma década ou mais. “O preço do leite não varia igual a especulação financeira”, diz.

Gontijo se refere ao dólar, cujo valor, nos últimos 60 dias, já havia disparado para os pecuaristas. O preço da saca de milho, de 60 quilos, pulou de R$ 32 para R$ 42. Com o farelo de soja não foi diferente. A tonelada custava R$ 1.300. Agora, é obrigado a desembolsar R$ 200 a mais por tonelada. Para elevar ainda mais as despesas, o preço médio do litro do leite in natura baixou de R$ 1,30, em 2013; para R$ 1,20, este ano.

Para ele, a solução, a curto prazo, está na prorrogação das dividas junto aos bancos oficiais e a liberação de crédito para o produtor manter a estrutura produtiva. “Na minha propriedade, mantenho o sustento de 90 famílias e toda uma economia ao redor. Com o encerramento do negócio leiteiro, os trabalhadores vão correr para a Capital à procura de emprego, mesmo não tendo nenhuma qualificação”´, completa.

Fonte: Diário do Nordeste

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