Jovem que nasceu sem língua vira auxiliar de enfermagem em Brasília

Auristela passou por cirurgias e tratamento para aprender a engolir e falar. Há apenas mais dois casos iguais ao dela na literatura médica, diz cirurgião.

O fato de ter nascido sem língua não impediu que a brasiliense Auristela Viana realizasse o sonho de concluir o curso de auxiliar de enfermagem. Um dos únicos três casos do tipo registrados na literatura médica, a jovem diz acreditar que as vivências que teve com cirurgias e tratamento a ajudarão a se tornar uma profissional mais sensível.

“Como enfermeira, posso explicar a minha experiência com os tratamentos não só do meu caso, mas também várias situações de patologias, acalmando os pacientes e oferendo o conforto e a confiança das suas melhorias hospitalares”, diz.

Ela conta que não sofreu preconceito na faculdade por causa da condição. “Todos os professores gostavam de mim. Eu sempre fui paparicada por eles por eu ser muito esforçada e determinada. [O relacionamento com os colegas era] Muito bom. Converso, estudo junto e procuro ajudar eles e eles me ajudam. São muito legais.”

Auristela ganhou alta médica em 2012. O caso dela era conduzido pelo cirurgião maxilofacial Frederico Salles. Em um vídeo feito para um simpósio da Universidade de Brasília (veja abaixo), o odontólogo mostra a evolução da garota, contando de 1 a 10.

Os dois se conheceram em 1995, quando a dona de casa Adriana Silva pediu ajuda para a filha. Na época, a criança engolia com dificuldade, falava mal e apresentava várias lesões no rosto por não conseguir reter a saliva na boca. A alimentação até então ocorria de forma improvisada.

“É uma anomalia incompatível com a vida, e por isso você não consegue ver os casos, eles morrem antes do diagnóstico. Usamos a língua para comer e falar”, disse Salles na época. “A mãe foi essencial. Como a menina não engolia o leite quando nasceu, ela comprou uma mamadeira de plástico que pudesse ordenhar, alargou o bico e, com a cabecinha da criança entre os joelhos e um pouco inclinada, jogava o leite direto na garganta dela.”

Para a sobrevivência de Auristela, foram realizadas várias cirurgias. A jovem diz não guardar lembranças ruins do tratamento. “Viciada” em maquiagem, ela afirma que adora brigadeiro e que passeia, estuda e namora normalmente, como qualquer garota. Ela também diz que sonha em conhecer os Estados Unidos, França, México, Japão e o continente africano.

“A época triste foi quando eu era pequena. Meus colegas me chamavam de Maria babona e nas festas juninas meu par sempre sumia. Ninguém queria dançar comigo”, lembra. “Eu me sentia triste, me arrumava toda para dançar quadrilha e chegava na hora era isso: todas as meninas bonitinhas com o seu par e eu dançando com a professora.”

A jovem estagiou em dois hospitais públicos – Base e Regional da Asa Norte – e afirma não se sentir inferior a ninguém. “Eu sinto que eu sou capaz. Eu nasci assim não foi à toa, é uma oportunidade de aprendizado e eu devo dar valor à vida mesmo com todas as dificuldades. O sol nasce para todos.”

A mãe afirma sentir muito orgulho de Auristela. Segundo a dona de casa, as dificuldades ajudaram toda a família a crescer. O essencial, diz, era sempre conversar com a menina e explicar que tudo que ela enfrentava é normal, já que todas as pessoas têm alguma dificuldade.

“O primeiro momento é aquele choque, né? Você está se preparando para ter um filho perfeito e de repente você se depara com um problema que no momento é a pior coisa que pode acontecer”, contou ao G1. “Mas, por outro lado, também é bom depois de tudo você ver que você fez o melhor que pôde. E que deu certo.”

Entenda o caso

A aglossia congênita foi citada pela primeira vez em 1718, pelo médico e botânico francês Antoine de Jussieu. Até o final de 2012 foram registrados 12 casos da deficiência em todo o mundo. Em nove deles, ela estava associada a outras limitações, como a ausência de dedos. De acordo com o cirurgião maxilofacial Frederico Salles, há somente três casos em que o paciente nasceu apenas sem a língua – os outros dois ocorreram nos Estados Unidos.

Para a sobrevivência desses pacientes, são necessárias cirurgias que alarguem a mandíbula, além de terapias para fortalecer a musculatura da boca. “A criatividade e o amor das mães, que trazem uma força sobrenatural para buscar as soluções para as necessidades das crianças, também fazem total diferença”, explicou.

O odontólogo declarou que Auristela conseguiu aprender a falar porque os músculos da parte debaixo da boca dela são três vezes mais fortes que o normal e tocam os dentes. A jovem fez acompanhamento com psicólogo, fonoaudiólogo, nutricionista, dentista e dois cirurgiões durante 16 anos.

Fonte: G1

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