Bolsonaro não esclarece a suspeita de Lavagem de Dinheiro com imóveis

Os jornalistas Camila Mattoso e Italo Nogueira, ambos da Folha de SP, falaram com Jair Bolsonaro nesta quinta-feira (11), em sua casa de veraneio em Angra dos Reis (RJ). Durante a entrevista, o suspeita sobre Lavagem de Dinheiro usando imóveis no Rio foi questionada ao parlamentar que não conseguiu esclarecer os fatos.

Jornalistas: O senhor tem duas casas num condomínio. A casa 58 e a casa 36. Estão no nome do senhor. Está correta essa informação?

Bolsonaro: Tá certo.

Jornalistas: A casa 58 o senhor comprou em 2009. Está correto?

Bolsonaro: Tá.

Jornalistas: E a 36?

Bolsonaro: Em 2012, se não me engano.

Jornalistas: E como é que foi a compra da 58?

Bolsonaro: Tá no contrato, cara. Eu estava procurando casa no condomínio porque eu morava de aluguel e apareceu essa oportunidade. O vizinho resolveu vender pra mim porque deu preferência por ser que não vai dar problema pra ele. É simples. O preço que ele botou lá é problema dele, não é meu.

Jornalistas: Mas o senhor não acha curioso, estranho, o fato de ela ter comprado 4 meses antes por R$ 580 mil?

Bolsonaro: Não acho estranho.

Jornalistas: Ela ter declarado à Folha que reformou o imóvel para vender e depois da reforma ela vendeu por R$ 400 mil?

Bolsonaro: Quando eu entrei na casa, ela estava pintada, ela estava caiada, a reforma foi caiar a casa, mais nada. Aquilo não foi reforma que fizeram. Tanto é que, quando eu entrei, tive que refazer tudo. O mais fácil, se eu tivesse recurso, era botar a casa no chão e fazer outra.

Jornalistas: O ITBI estava calculado em R$ 1 milhão e o senhor pagou R$ 400 mil.

Bolsonaro: O ITBI não é em função do que você paga, ele é em função do valor venal, você não tem como sonegar o ITBI.

Jornalistas: Mas o senhor recorreu [do valor cobrado no ITBI]? Porque o senhor acabou pagando o dobro de imposto.

Bolsonaro: Eu não quis recorrer, o meu advogado não quis recorrer.

Jornalistas: O senhor pode explicar para quem não entendeu?

Bolsonaro: Lá, por exemplo, as casas, 90% das casas não têm habite-se, aquelas ruas nossas, com uma chuva um pouco além do normal, ela alaga.

Jornalistas: Deputado, a gente está falando de um condomínio na rua Lúcio Costa. (Localizada da orla da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, um dos endereços mais caros do Brasil).

Bolsonaro: É um bom condomínio, sim. O total da área, da minha casa, é de 240m2.

Jornalistas: 290 e pouco, segundo o IPTU.

Bolsonaro: Não é 450m2, que é o padrão que tem por aí.

Jornalistas: Há diferença entre o que o senhor pagou e o que foi calculado pela prefeitura. A que o senhor atribui essa diferença?

Bolsonaro: O meu corretor que fez a compra. Você acha que foi sair de Brasília e ficar 2, 3 dias correndo cartório, tirando certidões negativas, o corretor que fez.

Jornalistas: Em 1999, o senhor declarou em uma entrevista que sonegava, defendia a sonegação.

Bolsonaro: Sim. Mas pera aí, deixa eu complementar. Terminou? Vai, continue.

Jornalistas: Esse modelo de compra que o senhor fez, o Coaf classifica atualmente como uma operação sob suspeita de lavagem de dinheiro e sonegação de impostos. O senhor sonegou impostos nessa operação?

Bolsonaro: Quando eu falei que sonegava... quem hoje em dia e no passado nunca se indignou com a sua carga tributária? Quem quer ter segurança tem que fazer o quê? Segurança particular, quem quer ter saúde, tem que colocar o filho em escola particular... educação. Quem quer ter saúde, precisa ter um plano. Foi um desabafo, e desabafo hoje de novo também. Hoje o povo, como um todo, só não sonega o que não pode, e é uma verdade isso daí. Eu, representando o povo, desabafei naquele momento isso.

Jornalistas: Mas o sr., como homem do povo, o sr. acha...

Bolsonaro: Não é justo você sonegar. O injusto é o governo não dar nada em troca dos impostos que estão sendo arrecadados.

Jornalistas: O sr. declarou que sonegou.

Bolsonaro: Eu nunca soneguei. Eu sonego... 'Eu mato tudo quanto é bandido que vier pela frente'. Matei algum bandido?

Jornalistas: Mas naquela declaração, o sr. falou...

Bolsonaro: Eu estava na televisão, desabafando a questão da carga tributária nossa.

Jornalistas: Sim, e o sr. desabafou que sonegou um imposto.

Bolsonaro: Não desabafei. Falei 'sonego tudo que é possível'. Como posso sonegar, por exemplo, ICMS?

Jornalistas: Se o sr. sonega tudo o que é possível, o sr. confirma uma sonegação. Concorda?

Bolsonaro: Não é possível. Não, não, não. Negativo. Era um desabafo. Você acha que, na minha função de parlamentar, se eu fosse um sonegador, ia estar falando?

Jornalistas: Mas o sr. falou.

Bolsonaro: Você acha? Eu tenho imunidade para falar, não é para entrar na Lava Jato. Tenho imunidade para falar o que bem entender. Sou o único deputado que não tenho imunidade parlamentar.

Jornalistas: O sr. pode falar que cometeu uma sonegação fiscal?

Bolsonaro: Nunca cometi.

Jornalistas: Mas por que o sr. afirmou naquela época?

Bolsonaro: Naquela época, eu estava reverberando, como agora poderia reverberar, um clamor popular.

Jornalistas: O sr. pode reverberar defendendo a sonegação. Mas o sr., além de defender de defender a sonegação...

Bolsonaro: Pega a fita lá na íntegra.

Jornalistas: Eu peguei. Além de defender a sonegação, o que seria um apoio à população, o sr., como pessoa física, reconheceu ter sonegado. Falou 'sonego e recomendo a todas as pessoas que soneguem'.

Bolsonaro: Mas qual o problema? Estou desabafando.

Jornalistas: Se o sr. sonega, é um problema fiscal.

Bolsonaro: Eu não sonego nada. Se houve um deslize num palavreado meu, é uma coisa. O que eu tava é reverberando a indignação popular.

Jornalistas: Foi um deslize do sr.?

Bolsonaro: Hoje em dia, sim. Com a situação que estou, vou falar que foi deslize. Se eu chegar à Presidência da República, nós vamos tratar o dinheiro com zelo. Tanto é que não vai ter dinheiro para vocês da imprensa, que faz essa imprensa fake news como vocês aí. Então, a Folha fake news foi R$ 180 milhões, mais ou menos, no governo do PT. Essa grana vai para o povo.

Até agora, Jair Bolsonaro não conseguiu definir se estava desabafando ou reverberando.
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