Este Irã merece ser lembrado como uma das melhores seleções asiáticas que a Copa já viu


Ver uma seleção asiática nos mata-matas da Copa do Mundo é raridade. Apenas seis vezes os representantes do continente conseguiram superar a fase de grupos. A assombrosa Coreia do Norte de 1966 foi a pioneira, deixando a Itália pelo caminho, até sucumbir à atuação espetacular de Eusébio nas quartas de final. A Coreia do Sul alcançou a melhor campanha, com a caminhada até as semifinais de 2002, além de ter caído nas oitavas em 2010. O Japão também tem as oitavas como barreira, atingida duas vezes, em 2002 e 2010. E a Arábia Saudita também deixou saudades em 1994, depois de desnortear a Bélgica com o golaço de Al-Owairan. Dentre os asiáticos com mais de um Mundial no currículo, o Irã é o único que sempre morreu cedo. São cinco participações, as cinco limitadas à fase de grupos. E se a mais recente termina em frustração, por aquilo que ficou a um triz de acontecer contra Portugal, ela também merece render o orgulho. Os persas caem precocemente, mas são reconhecidos pela bela trajetória.

O Irã já chegou à Copa do Mundo merecendo respeito. Seu desempenho nas Eliminatórias foi espetacular. Tornou-se o único time a nadar de braçada na AFC, garantindo a classificação antecipadamente. Terminou o hexagonal final invicto, com seis vitórias conquistadas e, mais impressionante de tudo, sem tomar um gol sequer ao longo das nove primeiras rodadas. Pelo retrospecto, naturalmente seria um time a se observar, embora o sorteio não tenha sido nada generoso. Colocar Espanha e Portugal pelo caminho seria um problema por si. E ainda teria Marrocos, o time mais técnico entre os classificados na África.

A estreia ante os marroquinos, tratada por alguns como “pelada” previamente, foi um jogo interessante durante a maior parte do tempo. Cada um em sua proposta, entre a pressão dos africanos e a velocidade dos asiáticos. O duelo caiu de ritmo na segunda etapa, mas a sorte acabou sorrindo aos persas. Uma bola desviada contra as próprias redes por um magrebino seria suficiente para a comemoração. Era um passo para tentar surpreender os gigantes. Contra a Espanha, as virtudes do time de Carlos Queiroz ficaram mais latentes. A disciplina tática ajudou a segurar a Roja durante a maior parte do jogo, mal deixando os ibéricos se aproximarem de sua meta. Entretanto, a sorte desta vez esteve do outro lado. A bola respingada de Diego Costa entrou. As chances do outro lado, não. Ainda assim, havia a esperança no encontro com Portugal.

O Irã mostrou-se outro time. Contra um adversário que não domina tanto o controle da bola no seu meio-campo, os persas podiam se soltar mais. Tomaram os seus riscos, é verdade, principalmente em desleixos de sua defesa. Mas fizeram um ótimo primeiro tempo, em que atacaram e criaram oportunidades, mesmo não finalizando com o maior dos caprichos. Faltou um lampejo como o de Quaresma, o átimo de superioridade que deu a vantagem aos tugas pouco antes do intervalo.

Já na etapa complementar, o jogo partiu à tensão. Muitas faltas, muitas reclamações. Sobretudo, muitas paradas por conta do VAR e decisões discutíveis da arbitragem. O goleiro Alireza Beiranvand garantiu a sobrevida ao pegar o pênalti de Cristiano Ronaldo. E depois que Karim Ansarifard converteu a penalidade que garantiu o empate, a virada histórica dos iranianos não aconteceu por alguns centímetros, na finalização de Mehdi Taremi que pegou no lado de fora da rede. Faltaram também alguns minutos a mais de acréscimos após tantas paralisações. Em vez de gastarem forças com uma reclamação inútil, esgotados, os persas desabaram no gramado e lamentaram o heroísmo tão próximo, mas que não veio.

Carlos Queiroz despediu-se da seleção iraniana com a eliminação. E não se nega o sucesso de seu trabalho nestes sete anos. Assumiu um time que não havia se classificado à Copa do Mundo de 2010 e que caíra nas quartas de final da Copa da Ásia de 2011. Durante o início do processo, montou uma equipe competitiva, capaz de garantir seu lugar no Mundial de 2014 e dar trabalho a seleções mais renomadas, independentemente das limitações. A concentração e a disciplina tática valiam demais. Contudo, é no último ciclo que a excelência foi alcançada.

A campanha na Copa da Ásia de 2015 decepcionou, com o Irã parando outra vez nas quartas de final, superado pelo rival Iraque. Todavia, o Team Melli cresceu demais. Sobretudo, pelos talentos que adicionou. Dos 23 convocados à Rússia, 13 estrearam após a Copa de 2014. Com novas peças, de mais qualidade, Queiroz pode dar variações e extrair ainda mais de sua força coletiva, mantendo um plantel extremamente coeso. É uma equipe centrada e que se vale disso para travar os jogos. Mas também capaz de decidir, mesmo que isso tenha falhado por detalhes durante esta Copa.

A despedida de Queiroz, afinal, não é um fim ao Irã. Ou, ao menos, não deveria ser. Há uma base interessante para se manter e disputar ao menos uma nova Copa do Mundo. Da base titular que atuou na Rússia, apenas Omid Ebrahimi e Vahid Amiri passaram dos 28 anos, ambos com 30. Já a única perda sentida até 2022 deve ser o capitão Masoud Shojaei, mas que apareceu pouco nesta campanha. Entre os nomes mais elogiados nesta geração, Sardar Azmoun, Alireza Jahanbakhsh, Mehdi Taremi e Saeid Ezatohali têm 25 anos ou menos. Devem ser protagonistas rumo ao Catar, se mantiverem a toada em suas carreiras.

O Irã tinha um time interessante na Copa de 1978, quando chegou a segurar a badalada Escócia, mas que se desfez após a Revolução de 1979. Já a classificação em 1998 representa o auge de uma geração que abriu as portas ao país nos clubes europeus, liderada por Ali Daei, Karim Bagheri, Mehdi Mahdavikia e Khodadad Azizi. Conquistaram contra os Estados Unidos o primeiro triunfo do país nas Copas. O segundo veio neste Mundial, diante de Marrocos. E ainda existam atletas lendários entre os antecessores, não se nega que o atual grupo conta com jogadores já representativos ao futebol persa. O desafio será ampliar as perspectivas sem o mestre Carlos Queiroz.

Independentemente do que acontecerá no futuro, é preciso reconhecer o presente. E a campanha do Irã, dentro do que se esperava e diante do que ambicionou, é excelente. Duas seleções bem mais referendadas suaram frio contra os persas, com riscos reais de eliminação. As minúcias, porém, foram custosas ao Team Melli. Fica a história. A ausência nos mata-matas deixa a equipe de Carlos Queiroz um patamar abaixo de outros asiáticos do passado. Mesmo assim, algumas delas não fizeram partidas tão notáveis quanto as deste Irã. O rompimento se lamenta, mas os méritos não podem ser escondidos. Se as bolinhas fossem mais benevolentes no sorteio, colocando os iranianos em outra chave, haveria boas chances de um final de campanha diferente – não tão precoce.

Fonte: TRIVELA
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