Cidade cearense lidera empregos com carteira assinada

EBC

Cantada em versos por ícones da MPB como Chico Buarque, Fagner e Maria Rita, o município de Quixeramobim (CE) ganhou uma notoriedade diferente este ano. Ao assinar a carteira 4 mil operários em situação considerada irregular por auditores fiscais do trabalho, a Cooperativa de Calçados de Quixeramobim (Cocalqui) colocou a cidade de 78.658 habitantes do sertão central no topo do ranking dos municípios que mais geraram empregos formais em proporção ao tamanho da população.

Conforme cruzamento realizado pelo do Valor Data, a partir de estatísticas do Ministério do Trabalho e do IBGE, Quixeramobim gerou 5.172 empregos formais líquidos nos últimos 12 meses, o equivalente a sete vagas para cada cem moradores. O levantamento considerou um recorte dos municípios com 30 mil habitantes ou mais - portanto, abriga desde pequenas cidades às grandes metrópoles.

A formalização dos vínculos em Quixeramobim teve origem numa fiscalização do Ministério do Trabalho. Segundo o auditor Francisco Eudes Gomes Júnior, uma série de inspeções, entrevistas e exames de documentos mostrou que os operários da Cocalqui atuavam, na prática, como empregados, e não como cooperados. Eles produzem calçados destinados à Angier, que comercializa tênis para a Nike.

"Examinando uma série de constatações, vimos que a relação era de empregados. A Angier tinha câmeras dentro da cooperativa para acompanhar os trabalhos", diz o auditor.

Pela importância econômica da atividade para Quixeramobim, os auditores fiscais optaram por instaurar uma "mesa de entendimento" com objetivo de regularizar a situação local, o que está previsto na legislação. Com isso, a cooperativa realizou assembleia em que os próprios cooperados decidiram se transformar em celetistas. Isso influenciou as estatísticas de emprego formal da cidade.

Segundo Daniela Almeida, 30 anos, coordenadora de segurança e saúde da Cocalqui, a assinatura da carteira de trabalho trouxe poucos ganhos ao salário líquido do fim do mês. Por outro lado, houve benefícios como FGTS e horas extras, acrescentou a coordenadora. "Como antes éramos cooperados, o que tínhamos era o rateio e o banco de horas. Isso melhorou."

Natural de Fortaleza, Daniela mudou-se ainda pequena para a casa de familiares no sertão central nordestino. Seu único emprego até hoje foi na fábrica de calçados, onde está há 11 anos. "Vim nova para o sertão e fiquei. Hoje sou pós-graduada em serviço social e organizacional. E foi a renda da fábrica permitiu isso", disse a trabalhadora.

Para a chefe de gabinete da Prefeitura de Quixeramobim, Guida Pimenta, a assinatura da carteira de trabalho foi uma "efetivação histórica": "Era a crítica que existia contra a fábrica, que trouxe muito desenvolvimento para a cidade. Vim nova para o sertão e fiquei. Hoje sou pós-graduada em serviço social e organizacional. E foi a renda da fábrica permitiu isso", disse a trabalhadora.disse.

Procurada, a Aniger informou que a alteração da condição dos cooperados para celetistas na Cocalqui foi uma decisão da própria cooperativa em assembleia geral. Por e-mail, a empresa informou que "em nenhum momento durante estes 23 anos, houve irregularidade na relação comercial entre a nossa empresa e a cooperativa". Os responsáveis pela Cocalqui não foram localizados após insistentes contados da reportagem por telefone.

Na média nacional, o país gerou 284.875 postos de trabalho formais em 12 meses encerrados em maio, saldo líquido entre vagas abertas e fechadas.

O segundo colocado no ranking de maiores geradores de vagas formais no país foi o município de Extrema, localizado em Minas Gerais, com 1.505 vagas geradas líquidas nos últimos 12 meses, uma proporção de quatro para cada cem habitantes. De acordo com informações do Ministério do Trabalho, o emprego local foi ajudado pelos resultados da indústria de transformação e de serviços.

Também aparecem na lista municípios que mais geraram vagas formais, em proporção ao tamanho da população, Itupeva (SP), Campo Novo do Parecis (MT), Aracruz (ES) e Goiana (PE), Pomerode (SC), Palotina (PR) e São Desidério (BA), conforme o cruzamento de dados realizado pelo Valor Data. Em Itupeva, o emprego foi concentrado no setor de serviços.

No outro extremo do ranking, a dos municípios que mais cortaram vagas, está Canaã dos Carajás, no interior do Pará. Foram 2.199 vagas fechadas nos últimos 12 meses, 6,1% da população. O município teve forte saldo positivo de vagas nos últimos anos com as obras do projeto S11D, maior da história da Vale. Com o fim das obras, o emprego na cidade está "desinflando".

Na sequência dos locais que mais fecharam vagas estão dois municípios do Norte do Estado de São Paulo: Bebedouro e Matão, distantes 84 quilômetros um do outro. O primeiro perdeu 3.611 empregos nos últimos 12 meses, o correspondente a 4,6% da população. Matão fechou 3.629 vagas no mesmo período, neste caso o equivalente a 4,4% dos habitantes locais.

Na lista dos dez municípios que mais perderam empregos está Macaé, a capital do petróleo. Com a menor do setor para empresas locais, a atividade da cidade foi impactada.

A própria perda de arrecadação pela prefeitura nos últimos anos afetou a contratação de serviços. Macaé fechou 4.600 vagas nos últimos 12 meses, o correspondente a dois postos para cada cem habitante - são 244 mil ao todo.

No caso da cidade do Norte fluminense, a boa notícia é que o município tem conseguido reverter neste começo de ano parte dos empregos perdidos ao longo do ano passado. De janeiro a maio, foram geradas cerca de 1.000 vagas líquidas na cidade, conforme o acompanhamento do Ministério do Trabalho. Isso foi possível graças às contratações na indústria de transformação, que superaram os cortes na construção civil local.

Fonte: VALOR ECONÔMICO
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