Com vídeos no YouTube, agricultores nordestinos batem 80 milhões de visualizações

Resultado de imagem para no YouTube, pequenos agricultores batem 80 milhões de visualizações em sete meses

O agricultor Francisco Valdo de Oliveira sempre foi um homem conhecido e considerado, mas seu círculo de contatos não ia muito além dos limites do Sítio Serraria, uma comunidade rural de cerca de 30 famílias no sertão do Rio Grande do Norte.

Sua rotina é pacata: cuidar da roça de milho e feijão - e contar histórias para amigos e parentes. Nos últimos sete meses, algo mudou: a escala do seu renome. Sem sair do Sítio Serraria, Valdo ficou famoso entre milhões de pessoas.

A mágica aconteceu no YouTube. Depois que a internet chegou à comunidade, há cerca de 9 meses, Valdo, alguns primos e amigos criaram um canal de vídeos de humor, o Humorista da Serraria Ofc (a terminação é para "oficial", porque já houve quem tentasse plagiar a página). Lá, postam "causos" engraçados da vida rural do Nordeste, gravados na roça e nas casas da comunidade. Já são mais de 120 vídeos, com 5 a 15 minutos de duração, e 80 milhões de visualizações.

"Tento transmitir a vida sofrida do povo nordestino, transformando tristeza em alegria, sofrimento em humor, em coisa boa para o povo", diz Valdo, de 55 anos, cuja família vive da roça de subsistência e do Bolsa Família.

Com humor inocente sem polarização, Whindersson conquista o Brasil e já mira Europa e África 5 formas simples de ganhar dinheiro com o YouTube As histórias lembram o humor ingênuo e caipira de Amácio Mazzaropi, que fez sucesso nos 1960 e 1970. Foi Mazzaropi que interpretou nos cinemas o clássico personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, um trabalhador rural que simboliza o caipira brasileiro. "Você conhece o Rio de Janeiro?", perguntou um amigo para Jeca Tatu. "Não, eu conheço é o rio Tietê, que passa lá embaixo."

á Valdo interpreta o agricultor Seu Mané, personagem principal do Humorista da Serraria, que vive enganando Seu Antônio. Em um dos vídeos, Seu Mané tenta conseguir milho para a esposa grávida matar o desejo de comer canjica, e conta como ele a mulher reataram há pouco tempo. "Depois que a mulher me deixou, Seu Antônio, eu 'ismagreci' tanto, perdi uns 30 quilos. Eu só não voei porque eu tenho umas pedras no rim."

Transformando a rotina em riso

No vídeo mais visto do grupo, postado há um mês e com 4,2 milhões de visualizações, três agricultores procuram Seu Mané para cobrar uma dívida e ele acaba conseguindo enrolar um quarto, Seu Antônio - sempre ele. Em outro vídeo, precisando de carne pra cozinhar, Seu Mané tenta convencer Seu Antônio a lhe dar uma galinha, dizendo que o mundo ia acabar.

"Antigamente, quando não tinha nem energia no sítio, o povo se se reunia para me ver contar história. Agora, eu olho os comentários dos vídeos, tem gente de Manaus, São Paulo, do país inteiro. Eu não esperava ser reconhecido assim não", diz Valdo - cada vez mais chamado de "Seu Mané", inclusive entre amigos e parentes do Sítio Serraria.

Além dele, fazem parte do grupo os primos Arnaldo Antunes de Oliveira (o Seu Antônio), de 56 anos, e Vitor Cesar de Oliveira, de 12 anos (o Joaquim, o fofoqueiro e passa-recado). Também aparecem nos vídeos Zenildo, Talita, Ronivon e Roberto. Outro primo de Valdo, Francisco Itamar de Oliveira, é o cinegrafista - seu equipamento é um celular.

Vídeos gravados com celular comprado por vaquinha

"Eles não têm estudo, mas são muito inteligentes", diz o amigo de infância Romualdo Pinheiro da Silva, de 47 anos, hoje morador de Mossoró. Valdo, por exemplo, só frequentou a escola por três anos. "Naquele tempo, os pais da gente não se interessavam, não (por colocar os filhos na escola)", diz ele. Aos 7 anos, começou a trabalhar na roça. O mesmo aconteceu com Arnaldo.

Fora da escola, os meninos fizeram do Sítio Serraria um palco. "Desde pequenos, eles tinham muito talento. Sempre contavam muita história bonita. Parece que (a fala deles) já vinha gravada, contavam tudo certinho. Era só brincadeira sadia, não diziam nenhum palavrão. Mas não tinham oportunidade. A gente via que um dia iam inventar alguma coisa para dar sucesso", lembra Romualdo.

Fã de Mazaroppi e do humorista Tirulipa (filho do palhaço e deputado federal Tiririca), Valdo sonhava em contar suas histórias além do Sírio Serraria. "Toda a vida tive vontade de aparecer na tela", diz ele. Até que, há cerca de dois anos, decidiu gravar a primeira história, com o celular do primo Itamar. O resultado foi emocionante: "Achei bonito demais (ver) a gente na tela".

O vídeo foi parar em um grupo de amigos no WhatsApp. "A gente gravou pensando em ficar só por aqui mesmo, mas as pessoas assistiram, gostaram e pediram para a gente gravar mais", fala Arnaldo. Mas, sem internet na comunidade, era difícil compartilhar as gravações, que foram ficando esparsas.

Até que a internet chegou no Sítio Serraria, há cerca de 9 meses, e o grupo deslanchou. "Coloquei internet em casa e falei: com essa internet eu vou ganhar dinheiro para pagar a própria internet", diz o agricultor Valdo.

O próximo passo foi conseguir um celular melhor que o de Itamar. "Eles são muito carentes e não tinham como comprar celular. Moram no sertão, são um pessoal muito sofrido. E é justamente isso que querem mostrar no trabalho deles, como vive um sertanejo", fala o amigo Romualdo. "Então, no grupo de WhatsApp, eu dei a ideia de fazermos uma vaquinha para comprar um celular para eles". Conseguiram R$ 800 - e um novo celular.

Itamar virou o câmera oficial: "É tudo no improviso. Os cortes sou eu mesmo que faço no celular, com um aplicativo de edição de vídeo que eu baixei".

Depois da internet e do novo celular, foi a vez do canal no YouTube. "Eles nem sabiam que podiam gravar e ganhar alguma coisa com isso, não sabiam como funcionava o YouTube. Foi o grupo de WhatsApp que deu essa ideia para eles", conta Romualdo. "Aí, deu esse sucesso, graças a Deus", comemora Valdo.

Apesar do canal Humorista da Serraria já ter sete meses, faz somente cerca de 15 dias que o YouTube liberou a monetização. A partir daí, os vídeos começaram a exibir propagandas. Em troca, devem render pagamentos pela plataforma.

A possibilidade de ganhar dinheiro fazendo o que gostam deixou todos animados. "Eu não sei dizer o quanto que vai vir. Não sei se pagam em real ou em dólar. Mas, quando a gente receber, vamos repartir entre a turma", celebra Valdo.

Dependendo do valor, o humorista quer comprar um equipamento melhor para gravar, algum que "não pegue o ruído do vento". "Aqui no Rio Grande do Norte, tem hora que tem muito vento. Aí, a gente precisa procurar um lugar baixo onde o vento não passa ou gravar nas casas mesmo."

Comunidade de parentes, que vivem da roça, do Bolsa Família e de aposentadoria Os primos Valdo e Arnaldo nasceram e se criaram no Sítio Serraria, localizado em João Dias, município de 2,6 mil habitantes, a cinco horas de Natal.

A comunidade rural foi fundada pelos avós dos humoristas, Antonio José de Oliveira e Maria Francisca de Oliveira. Em homenagem à matriarca, muitos filhos, netos e bisnetos levam Francisco no nome.

Quase todos são parentes. Valdo, por exemplo, se casou com uma "prima legítima", conhecida na comunidade por Do Céu. Já Arnaldo, casou com outra prima, irmã da mulher do primo.

O sustento vem da terra. "A gente vive trabalhando na roça, não tem outro meio de vida, não. Plantamos milho, feijão, fava, jerimum. Temos jumento. O que a gente tira (da terra) é só para consumo mesmo. As terras aqui é muito difícil de lutar", diz Valdo.

"O que a comunidade compra é com dinheiro do Bolsa Família ou de algum velho aposentado que ajuda os filhos. Serviço é difícil de ter. Aqui no sertão do Nordeste, a gente vive com 300, 400 reais e dá para ir passando, graças a Deus. A gente é feliz desse jeito", completa o agricultor.

Para Valdo, essa humildade é o segredo do sucesso do Humorista da Serraria. "O povo vê os vídeos e gosta do lugar, da simplicidade da gente, que somos humildes". "Eu nem imagino que tem gente assistindo a gente em todo o Brasil, fico feliz demais. O prazer da gente é fazer o pessoal feliz", completa o primo Arnaldo.

"Não tem um palavrão. Criança, rapaz, senhor de idade, qualquer um pode assistir. Não é fácil você gravar no sertão, jogar na internet e fazer sucesso no Brasil inteiro", fala Romualdo.

No vídeo mais visto, já são 1,8 mil comentários. "Parabéns a toda a equipe de vocês. Simples, humilde, mas bem feito. Lembrei-me do tempo do Mazzaropi. Assistir vocês é bem melhor que aqueles programas de risadas forçadas", diz um deles. "Venho aqui do RJ para dizer o quanto vocês são bons, vejo todos os vídeos com minha filha. Seu Mané, seu Antônio, seu Joaquim, seu Pimentão vocês são dez", fala outro. "Vocês vão ficar na história do humorismo brasileiro. Parabéns."

Fonte: BBC BRASIL
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