Sertão cearense sob risco de queimadas

ÁREAS com maior risco estão situadas nas regiões do médio Jaguaribe, Inhamuns e Centro-Norte do Estado

Estudo da Funceme indica que todo o sertão cearense tem pontos de risco de incêndios florestais, com destaque para 20 cidades - oito delas têm mais de 40% de seu território sob ameça de queimadas que podem se alastrar. Dados devem embasar ações de prevenção.

odo o ambiente sertanejo do Ceará tem pontos de alto risco de incêndios florestais. A constatação é do estudo inédito da Fundação Cearense de Meteorologia e Estatística (Funceme) que identifica com cruzamento de dados de pluviometria média, umidade do ar e do solo, condições de vegetação e usos da terra por agricultura, para indicar áreas com potencialidade às queimadas de mata nativa. O levantamento, que passará a ser anual, indica as 20 cidades com maiores áreas de risco - em oito delas a ameça está presente em mais de 40% do território total do município.

Integrante do Comitê Estadual de Prevenção, Monitoramento e Combate aos incêndios florestais (Previna), a Funceme irá com o estudo auxiliar a formulação de diretrizes de prevenção, monitoramento, controle de queimadas, além de poder indicar subsídios às políticas de autorizações de fogo controlado. É o que explica Manuel Rodrigues, coordenador do projeto e supervisor do Núcleo de Estudos Básicos da Funceme.

As áreas com maiores riscos estão situadas, predominantemente, nas regiões do médio Jaguaribe, Inhamuns e Centro-Norte do estado. O meteorologista da Funceme Raul Fritz destaca que são áreas com baixas médias pluviométricas. "Esses riscos tendem a aumentar no segundo semestre dos anos, principalmente em outubro, novembro e dezembro, pela distância da quadra chuvosa, por serem meses com menos incidência de chuvas, e pela força dos ventos que se intensifica".

De fato, o monitoramento histórico, desde 1998, do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta que os nove primeiros meses no Ceará têm média de 81 focos de calor por mês, mas quando se observa apenas outubro, novembro e dezembro, a média é de 1.213,6 por mês. Em 2019, até o último dia 15, foram detectados 272 focos de calor no Estado.

Entre os dados levantados pela Funceme, o município de Independência, na microrregião de Sertão de Crateús, se sobressai. Primeira da lista, a cidade tem 1.902,13 quilômetros quadrados (km²) - 59,13% de seu território - identificado como área de perigo de sinistros. Conforme Lindomar Galvão, secretário de Agricultura de Independência, os sete anos seguidos de seca, as baixas médias de chuva (com média anual de 566,8 milímetros) e o costume sertanejo de queimadas para preparação de terreno explicam o alto índice. "A seca afeta a produção agrícola, e leva ao aumento de áreas propícias ao fogo. Com a baixa pluviometria os agricultores buscam por solos mais férteis e de fácil manuseio. Esse manuseio muitas vezes é feito com uso de fogo", explica.

Para tentar minorar essas questões, Galvão expõe que a cidade tem feito parcerias para "o plantio do algodão agroecológico e orgânico, priorizando a preservação do solo e do meio ambiente, não permitindo o desmatamento e nem o uso do fogo no preparo do solo". "Também estamos fazendo reimplantação do Programa Aduba Sertão que trata da recuperação de áreas degradadas", conta.

A preocupação com as queimadas devem ser um dos focos do processo de prevenção, conforme recomenda tenente Waldomiro Loreto, do Corpo de Bombeiros Militar, especialista em combate a incêndios florestais. De acordo com Loreto, 98% dos incêndios têm como causa deflagradora a ação humana. "Em áreas urbanas, são as queimadas de lixo; na zona rural, são as queimadas para preparo do solo que, por falta de manutenção dos aceiros e por questões climatológicas acabam por se propagar", detalha.

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