Empresária cearense morta com um tiro não tinha vestígios de chumbo nas mãos, aponta laudo

Empresária morreu com um ferimento à bala em Fortaleza; polícia investiga o caso como homicídio — Foto: Arquivo Pessoal

Exame, contudo, foi feito muito tempo após o disparo e pode ter sido prejudicado, avalia perito. Namorado e filho da vítima não fizeram o teste.

O exame residuográfico feito pela Perícia Forense do Ceará (Pefoce) não encontrou chumbo nas mãos da empresária Jamile de Oliveira Correia, morta após ser ferida no peito com um tiro. A coleta foi realizada às 16h40 do dia 31 de agosto deste ano, poucas horas depois da morte da mulher. O laudo foi obtido com exclusividade pelo G1.

A morte da empresária era tratada como suicídio mas a polícia passou a cogitar a possibilidade de feminicídio cujo suspeito é Aldemir Pessoa. A mudança na investigação ocorreu após a descoberta de vídeos que mostram o namorado carregando Jamile ferida no elevador do prédio onde moravam e, em outra ocasião, agredindo-a dentro do carro. A defesa do advogado mantém a tese de que a empresária tirou a própria vida e afirma que o cliente tentou evitar o tiro disparado por ela, mas não conseguiu.

A reportagem apurou que o namorado de Jamile, advogado Aldemir Pessoa Júnior, e o filho da mulher, de apenas 14 anos, não realizaram exame residuográfico. O documento, assinado por um perito criminal, afirma que a não detecção de partículas de chumbo na amostra analisada pode conduzir a duas interpretações.

A primeira possibilidade é a "efetiva inexistência de chumbo no material analisado. Neste caso, em princípio, conclui-se que as superfícies analisadas não estavam na vizinhança de disparo de arma de fogo".

A segunda hipótese é que a não detecção de partículas de chumbo se deve a variados fatores, como quantidade inferior de chumbo, coleta realizada tardiamente, tipo de arma utilizada pelo autor, modo de empunhar a arma de fogo ou condições ambientais.

"Portanto, o presente exame não pode ser considerado como prova técnica contundente, única e definitiva para se estabelecer uma correlação entre vestígio detectado ou não, e o fato questionado. É recomendável ter outros meios de prova como orientação técnica. Outros exames de evidências materiais e/ou provas circunstanciais ou testemunháveis devem auxiliar na formação da convicção que o caso requer", conclui o laudo.

'Análise prejudicada'

Para o perito criminal aposentado e ex-diretor do Instituto de Criminalística do Ceará, Ranvier Aragão, o tempo entre a hora do disparo e a realização do exame pode ter deixado a análise "irremediavelmente prejudicada". "Para que esse exame seja factível é preciso que o examinado seja preservado, que o exame seja feito o quanto antes, que o examinado não tenha passado as mãos por nenhuma higienização hídrica", reforça Ranvier.




As investigações mostram que, no fim da noite do dia 29 de agosto, Jamile foi agredida pelo namorado no estacionamento do prédio. Logo depois, o casal retornou ao apartamento e houve um disparo de arma de fogo que atingiu a empresária. No início da madrugada do dia 30, câmeras de segurança do prédio registram que ela sai carregada pelo namorado e o filho. Às 7h da manhã do dia seguinte, Jamile morreu. O exame foi, portanto, feito com mais de 24 horas depois do disparo.

"A negatividade do exame não diz absolutamente nada. Apesar do exame ser negativo, é possível que a vítima tenha atirado. O exame precisa ser feito de preferência imediatamente, na hora que o cadáver cai na mão da polícia, do IML. Se não foi feito, é porque os peritos não tiveram essa condição", argumenta o perito.

Trajetória não é comum em suicidas

Após analisar tanto o laudo cadavérico quanto o residuográfico, Ranvier Aragão argumentou que a trajetória feita pela bala "não é comum de tiros suicidas". "Embora não podemos descartar, temos que analisar todo o conjunto probatório. (Os tiros suicidas normalmente são) no pavilhão auditivo, boca, coisas dessa natureza. Raramente é na região do coração. Mas para chegar a essa conclusão tem que analisar a arma, a mão da pessoa", ponderou.

O laudo cadavérico da Perícia Forense do Ceará (Pefoce) sobre a morte de Jamile afirma que o tiro disparado contra a vítima "se deu de cima para baixo". Segundo um dos médicos que atendeu a empresária, a trajetória da bala levanta a hipótese de o tiro ter sido disparado por outra pessoa.

Poderes sobre herança

Dez dias antes de morrer, Jamile de Oliveira assinou uma procuração em que dava direitos ao namorado para representá-la na Justiça no processo do inventário do ex-marido, José Aluísio Correia Neto, que morreu aos 54 anos em um acidente na Avenida Engenheiro Santana Júnior, em Fortaleza, no dia 3 de agosto de 2017.

O G1 teve acesso à procuração. A mulher concedeu poderes ao namorado para representá-la em qualquer tribunal, 'podendo, inclusive, requerer o que se fizer preciso, propondo as ações necessárias, contestar, replicar, interpor recursos, assinar termos, fazer acordo, desistir, retificar, ratificar, dar quitação e passar recibo'.

Ex-marido deixou patrimônio

Uma familiar de Jamile já havia revelado, sob a condição de não ser identificada, que Aldemir vinha ameaçando a empresária e já havia formulado um documento para que a vítima assinasse, autorizando repassar a ele todos os seus bens.

"Tudo isso me abala muito. A única coisa que ele queria dela era o patrimônio dela, quando o marido dela faleceu, ele deixou um patrimônio alto. Na minha cabeça, ele arquitetou tudo. Fez confusão e matou ela. Ele tinha uma folha onde dizia para ela passar todo o patrimônio dela para ele. Ela disse que ele podia matar ela e ela não passava. Ela dizia para mim que ele era um carrapato, que mandava ele sair do apartamento e ele não saía", afirmou a entrevistada.

Fonte: G1 Ceará
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