Justiça nega pedido de prisão temporária de advogado suspeito de matar empresária em Fortaleza

O advogado Aldemir Pessoa Júnior é suspeito de matar a namorada, Jamile Correia. A polícia também trabalha com a hipótese de suicídio da empresária. — Foto: Arquivo pessoal

A decisão, contudo, impõe medidas cautelares para assegurar a permanência do suspeito durante as investigações. O caso, antes tratado como suicídio, também é apurado com a possibilidade de feminicídio.

O pedido de prisão temporária do advogado Aldemir Pessoa Júnior, suspeito da morte da empresária Jamile de Oliveira Correia, em Fortaleza, foi negado pela Justiça do Ceará nesta quarta-feira (18).

(CORREÇÃO: o G1 errou ao informar que a Justiça negou pedido de prisão preventiva. Na verdade, o pedido negado foi de prisão temporária. A informação foi corrigida às 20h36.)

A morte da empresária era tratada como suicídio mas a polícia passou a cogitar a possibilidade de feminicídio cujo suspeito é Aldemir Pessoa. A mudança na investigação ocorreu após a descoberta de vídeos que mostram o namorado carregando Jamile ferida no elevador do prédio onde moravam e, em outra ocasião, agredindo-a dentro do carro.

A defesa do advogado mantém a tese de que a empresária tirou a própria vida e afirma que o cliente tentou evitar o tiro disparado por ela, mas não conseguiu.

A decisão que negou a prisão do suspeito foi tomada pelo juiz da 4ª Vara do Júri, Edson Feitosa dos Santos Filho. O caso da morte de Jamile ainda está envolto em dúvidas, com as suspeitas de suicídio, ou de feminicídio, cujo suspeito é o namorado da vítima.

Apesar de negar a prisão de Aldemir, o juiz da 4ª vara determinou que o advogado cumpra as seguintes medidas cautelares:

Não frequentar o apartamento da empresária, no Bairro Meireles, onde ocorreu o disparo.

Manter distância de, pelo menos, 200 metros das testemunhas, em especial do filho de Jamile;

Não ter contatos telefônicos ou por meios similares com as testemunhas;

Aldemir também está proibido de deixar Fortaleza;

Suspeito foi obrigado a entregar à polícia o passaporte;

Ademir deve entregar as cinco armas registradas em seu nome, incluindo a arma que disparou contra Jamile, no prazo de até 24 horas. Contudo, as armas já haviam sido apreendidas anteriormente pela polícia, ato já informado à Justiça anteriormente.

O indeferimento do pedido de prisão foi justificado pelo juiz em razão dos depoimentos ainda controversos das testemunhas. Segundo a decisão, os elementos colhidos pela investigação criminal até o momento, entre eles o depoimento do filho da vítima, se mostram insuficientes para atender ao pedido.

Além disso, as diferentes versões nos demais depoimentos colhidos até agora não se mostram suficientes para validar a prisão temporária do advogado.

Investigações




As investigações mostram que, no fim da noite do dia 29 de agosto, Jamile foi agredida pelo namorado no estacionamento do prédio. Logo depois, o casal retornou ao apartamento e houve um disparo de arma de fogo que atingiu a empresária. No início da madrugada do dia 30, câmeras de segurança do prédio registram que ela sai carregada pelo namorado e o filho. Às 7h da manhã do dia seguinte, Jamile morreu. Depois de mais de 24 horas do disparo, o exame pericial foi feito.

O exame residuográfico feito pela Perícia Forense do Ceará (Pefoce), obtido com exclusividade pelo G1, não encontrou chumbo nas mãos de Jamile. A reportagem apurou que Aldemir e o filho da mulher, de apenas 14 anos, não realizaram exame residuográfico. O documento, assinado por um perito criminal, afirma que a não detecção de partículas de chumbo na amostra analisada pode conduzir a duas interpretações.

A primeira possibilidade é a "efetiva inexistência de chumbo no material analisado. Neste caso, em princípio, conclui-se que as superfícies analisadas não estavam na vizinhança de disparo de arma de fogo".

A segunda hipótese é que a não detecção de partículas de chumbo se deve a variados fatores, como quantidade inferior de chumbo, coleta realizada tardiamente, tipo de arma utilizada pelo autor, modo de empunhar a arma de fogo ou condições ambientais.

O laudo cadavérico da Perícia Forense do Ceará (Pefoce) sobre a morte de Jamile afirma que o tiro disparado contra a vítima "se deu de cima para baixo". Segundo um dos médicos que atendeu a empresária, a trajetória da bala levanta a hipótese de o tiro ter sido disparado por outra pessoa.

Poderes sobre herança

Dez dias antes de morrer, Jamile de Oliveira assinou uma procuração em que dava direitos ao namorado para representá-la na Justiça no processo do inventário do ex-marido, José Aluísio Correia Neto, que morreu aos 54 anos em um acidente na Avenida Engenheiro Santana Júnior, em Fortaleza, no dia 3 de agosto de 2017.

O G1 teve acesso à procuração. A mulher concedeu poderes ao namorado para representá-la em qualquer tribunal, 'podendo, inclusive, requerer o que se fizer preciso, propondo as ações necessárias, contestar, replicar, interpor recursos, assinar termos, fazer acordo, desistir, retificar, ratificar, dar quitação e passar recibo'.




Ex-marido deixou patrimônio

Uma familiar de Jamile já havia revelado, sob a condição de não ser identificada, que Aldemir vinha ameaçando a empresária e já havia formulado um documento para que a vítima assinasse, autorizando repassar a ele todos os seus bens.

"Tudo isso me abala muito. A única coisa que ele queria dela era o patrimônio dela, quando o marido dela faleceu, ele deixou um patrimônio alto. Na minha cabeça, ele arquitetou tudo. Fez confusão e matou ela. Ele tinha uma folha onde dizia para ela passar todo o patrimônio dela para ele. Ela disse que ele podia matar ela e ela não passava. Ela dizia para mim que ele era um carrapato, que mandava ele sair do apartamento e ele não saía", afirmou a entrevistada.

Fonte: G1 Ceará
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