Após desabamento, cresce procura por empresas que fazem vistorias prediais em Fortaleza

O desabamento do Edifício Andrea deixou 9 pessoas mortas e 7 pessoas resgatadas com vida — Foto: Thiago Gadelha/SVM

Profissionais relatam, no entanto, que, após emissão do laudo, os reparos indicados não são realizados pelos proprietários.

A tragédia do Edifício Andrea, que desabou no último dia 15 deixando nove mortos e sete feridos, aqueceu a preocupação com outros prédios de Fortaleza. A demanda por avaliações de possíveis problemas, a inspeção predial, mais do que dobrou em algumas empresas que prestam este tipo de serviço.

É o caso JEAB Engenharia e Arquitetura. O engenheiro José Emidio Alexandrino Bezerra, sócio-diretor do negócio, relata que recebia de 10 a 15 consultas por orçamento para inspeção por semana. “Agora, isso mais do que dobrou. As pessoas ficaram apavoradas", aponta. Ele ressalta, entretanto, que essa procura tende a diminuir ao longo dos dias.

Fábio Fihr, proprietário da Fihr Engenharia, revela que, ainda na terça-feira (15), dia da queda do Edifício Andrea, recebeu quatro ligações solicitando orçamento. “Até então, o mercado estava parado. Isso porque existe a lei com a obrigatoriedade, mas não tem fiscalização. Ninguém estava interessado em fazer. Agora, por conta do medo, há procura”, relata o engenheiro.

Laudos nem sempre são executados

Ele ainda pontua que muitos clientes realizam a inspeção, mas não executam o que está previsto no laudo. “Muitas vezes, a saúde financeira do condomínio é precária. Há uma dificuldade de arcar com contas do dia a dia por causa da inadimplência e até mesmo má gestão, o que impossibilita a criação de um fundo de reserva para arcar com essas despesas”, ressalta.

O vice-presidente de condomínios do Sindicato Das Empresas De Compra, Venda, Locação E Administração De Imóveis Do Ceará (Secovi-CE), Wilson Braga, revela que a inadimplência média dos condôminos chega à casa dos 10%. “As convenções obrigam os condomínios a destinarem uma parte da arrecadação ao fundo de reserva, que normalmente é de 5%. Mas esse fundo muitas vezes é usado para a inadimplência”, explica.

“Quando se fala em cota extra, o povo já começa a se negar a fazer a prevenção, uma coisa que é óbvio que tem que fazer”, alerta. “Quando acontece uma tragédia, o povo passa a ter esse cuidado. Já se olha com outros olhos. Ela é necessária, é gritante a necessidade para isso”, diz Braga.

A sócia-diretora da Arqfor Arquitetura e Consultoria, Isabella Cantal, compara a inspeção predial a um check-up de rotina. “É como se a gente fosse fazer uma bateria de exames para saber se está tudo bem. É tão importante quanto para a saúde do prédio”, alerta. Ela ainda acrescenta que também ocorre dos clientes realizarem apenas a inspeção, mas não realizarem o que está indicado no laudo.

“Não adianta. É como o médico diagnosticar que você precisa de uma ponte de safena e você pegar aquele exame, ir para casa e não fazer nada. A inspeção é o início da prevenção, mas é só a ponta do iceberg”, dispara Isabella.

A sócia-diretora da Arqfor ressalta que os valores da inspeção predial não são absurdos. “Existem vários fatores que influenciam no valor da inspeção. As obras de reparação, de fato, é que podem pesar um pouco mais, dependendo do que for constatado”, esclarece.

Entre as principais variáveis, ela aponta o número de blocos do condomínio, o número de pavimentos, a quantidade de apartamentos, a idade do imóvel, a diversidade da área de lazer e o estado da edificação. “De qualquer forma, os condomínios precisam fazer essa reparação. E eles têm como se programar, porque indicamos no laudo quais as ações mais prioritárias e quais podem esperar um pouco mais, possibilitando essa organização”, detalha Isabella.

Ela alerta, no entanto, para o valor não ser o fator decisivo na hora de escolher qual o profissional ou empresa a realizar a inspeção. “É preciso que as pessoas parem de tratar isso de uma forma leviana. Não dá para contratar profissionais que você não sabe de onde saíram. É necessário pesquisar o histórico dele, saber se tem experiência, se tem referência”.

Ela aponta que a demanda por orçamentos cresceu cerca de 80% na última semana. “Infelizmente, foi preciso acontecer uma tragédia, que, inclusive, poderia ter sido evitada. Só espero, como cidadã, que o assunto não caia no esquecimento. Porque a lei da obrigatoriedade da inspeção não se restringe aos prédios residenciais. Abrange também prédios comerciais, shoppings, bares, restaurantes, clubes, igrejas, inúmeros ambientes que a gente e nossos familiares e amigos moram, estudam, trabalham, onde a gente transita. É questão de segurança”, dispara Isabella.

Fonte: G1 Ceará
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