"Eu me prostituí pelo vício em crack, fiquei limpa e casei com ex-cliente".

Fabiane de Souza foi estuprada aos 9, usou drogas a partir dos 13 e deu a volta por cima

Aos nove anos, Fabiane de Souza foi estuprada pelo filho do padrasto. Usou drogas pela primeira vez aos 13. Saiu da casa da família, num bairro de classe média baixa em Sepetiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, aos 16. Ainda passou quatro anos vagando pelas ruas do Rio de Janeiro, onde se prostituía para sustentar o vício em crack. Ao completar seis anos "limpa", diz que saiu das drogas com a força de vontade e o amor de um ex-cliente.

Hoje, aos 27, está casada e trabalha num salão de beleza, com designer de sobrancelhas e maquiagem, em Queimados, na Baixada Fluminense (RJ). E se sente confiante para contar sua história e lembrar o efeito que o crack causava nela, sem receio de recaídas.

"Comecei a ser abusada pelo filho do meu padrasto a partir dos cinco anos. Ele é dez anos mais velho que eu. Quando eu tinha nove, ele me estuprou. Naquele dia, desmaiei e fui socorrida pelo meu padrasto, que chegou minutos depois do ato. Naquela época, morávamos em Sepetiba (zona oeste do Rio), e ele mandou o filho viver longe dali, com parentes. Minha mãe se separou e nos mudamos para Mangaratiba, a cerca de 60 quilômetros, para reconstruir a vida. A família decidiu abafar o caso. Senti ódio de todos e nojo de mim.

A última vez em que vi meu pai, eu tinha quatro anos. Ele era casado quando se envolveu com a minha mãe, e ela preferiu evitar o contato com ele depois que nasci. Cresci numa casa com 15 pessoas. Só a minha avó materna, que era alcoólatra, tinha nove filhos. Tenho ainda dois irmãos, de 22 e 10 anos.

Minha mãe trabalha como garçonete e era sempre muito ocupada. Quando ela soube dos abusos que sofri, e do estupro, não me explicou o que significava aquilo. Só sabia que era errado porque sentia uma dor na alma e pensei em me matar várias vezes. Ela só falava que ia passar.

Aos 14 anos, me relacionei com um homem de cerca de 40, e ele me apresentou a maconha. Nessa mesma época, conheci um traficante que me introduziu à cocaína. E comecei a definhar. Minha mãe não fazia ideia do que estava acontecendo comigo, até os nossos vizinhos contarem que eu estava me envolvendo com pessoas erradas. Ela resolveu me tirar de lá, e nos mudamos para outro bairro.

Com a mudança, minha mãe conheceu meu padrasto atual e vivia para ele. Até largou o emprego, enquanto eu tinha que tomar conta da minha irmã. Então decidi sair de casa, aos 16 anos, e voltar para Sepetiba. Fui atrás do meu primeiro padrasto, pai do homem que me estuprou. Eu entendi que ele não tinha culpa. Tanto que me pediu perdão pelo que o filho fez. Eu o chamo de pai até hoje.




Mesmo morando na casa dele, não larguei as drogas. Até o dia em que um amigo teve uma overdose e morreu na minha frente. A gente estava num morro consumindo drogas havia três dias. Ali, resolvi parar com tudo. Mas conheci um homem de 38 anos e fui morar com ele. Logo depois, tive uma recaída. Fiquei limpa somente uns dias

Esse meu companheiro era usuário de maconha e cocaína. Quando vi que estava me viciando novamente, fui embora de casa, e morei um tempo com a minha avó materna. Cinco meses depois, descobri que estava grávida. Mas sofri um aborto espontâneo no mês seguinte. Já estava com 17 anos e tinha vivido isso tudo.

O crack e a sensação de desespero.

Acabei voltando a morar com o meu ex, e passamos quase dois anos nos drogando. Precisando de dinheiro, fui vender chocolate no trem. E conheci um homem, também camelô, que me ajudou com as vendas. Ficamos amigos, e ele me apresentou o crack.

O sabor é de plástico doce, e a sensação é de desespero. A onda só dura três segundos e, logo depois, vem a abstinência. Por isso, você quer mais.

Nos envolvemos e fomos morar num morro. Não deu muito certo. A ex-mulher dele apareceu com uma criança na nossa casa, dizendo que era filha dele, e preferi ir embora. Já estava muito viciada em crack. Em um dia, vendi tudo o que tinha na casa e comecei a vagar pela casa das amigas. Em dois dias, estava me prostituindo e trabalhando de aviãozinho, que leva e traz drogas, para sustentar meu vício. Estava com 18 anos.

Em pouco tempo, comecei a dormir na rua. Fui agredida várias vezes, estuprada, violentada de todas as formas. Dormia em qualquer calçada e acordava com gente que nunca tinha visto na vida. Fiquei nessa durante quatro anos

Uma vez, me jogaram de uma ponte e, depois de muito pedir ajuda, uma pessoa me deixou no hospital. Foi quando minha família descobriu que eu estava viva porque, quando fui para as ruas, perdi completamente o contato com eles. Minha mãe, avó e tios tentaram me internar numa clínica de reabilitação três vezes, mas eu não durava nem dois dias por lá e fugia.

Quando a pessoa viciada não quer, não adianta forçar o tratamento. E, nesses lugares, você passa o tempo inteiro só ouvindo as pessoas falarem de drogas. Como vai se curar assim?.

A volta por cima.

Fui parar no Jacaré (zona norte do Rio) e lá conheci meu atual marido, o Ney. Ele é cabeleireiro e tem 43 anos. Fiz programa algumas vezes para ele. Também no Jacaré, conheci um casal que me pagou para ficar com os dois. Ganhei R$ 800 e gastei tudo em pedra. Fiquei quase 20 dias sem dormir até que o Ney me encontrou, na rua, e viu o estado deplorável em que me encontrava e me levou para um hotel. Dormi por uma semana.

Contei toda a minha história e ele disse que ia me ajudar a sair do vício. Ele também foi usuário de cocaína, mas não acreditei na boa intenção dele e fugi. Dias depois, ele me viu comendo restos do que encontrava na rua e me levou para a casa dele. Eu estava cansada e decidi que pararia. Já era 2013. Estava com 21 anos e pesava 32 quilos. Ele me levou ao salão onde trabalhava, ajeitou meu cabelo, minhas unhas, cuidou de mim.



Passei os três primeiros meses odiando esse homem. Ele não me deixava sozinha. Se me desse dinheiro para comprar um pão, ia junto. E não permitia que amigas antigas me visitassem. Dizia que era para o meu bem, para nada me lembrar daquela vida. Um ano depois, éramos só amor e paixão. Vamos completar seis anos juntos

É difícil, mas quem tem parente ou amigo nessa situação, precisa ajudar. Não desista. Perdi pessoas que amava, não vi a formatura da minha irmã na escola, perdi o respeito da família, de amigos, de todos. Mas estou me recuperando. Meu marido pagou um curso de auxiliar administrativo e de contabilidade para mim. Fomos morar em outra cidade.

Esse, inclusive, é o conselho que dou para quem quer sair dessa: se afastar de tudo que lembre as drogas. Estamos em Queimados, na Baixada Fluminense, num local mais pacato. E hoje trabalho num salão com maquiagem, design de sobrancelha, cabelo.

Nunca fui vaidosa, e várias vezes nem encarava o espelho para não olhar minha aparência. Mas como meu marido trabalha com estética, fui aprendendo mais sobre esse mundo, e me cuidando mais também. Hoje me sinto mais mulher com a mudança, e mais segura também.

Vejo o psiquiatra uma vez por mês, para controlar minha crise de ansiedade e a depressão. E já fiz todos os exames. Estou saudável e limpa. Com força de vontade e o amor do próximo, conseguimos.

Fonte: Uol.com
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