Pacientes faltam e 67 mil atendimentos odontológicos em rede pública deixam de ser realizados no Ceará

Os dados se referem a 19 Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs) espalhados pelo Ceará — Foto: Fabiane de Paula/SVM

O percentual de ausências chegou a quase 20% nos últimos dois anos. Com a falta, outros pacientes deixaram de ser alocados nas agendas de atendimentos especializados.

Mesmo com a marcação de atendimentos mais específicos nos Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs) no Ceará, o número de pessoas que faltam às consultas é alto. Nos últimos dois anos, o percentual de ausências de pacientes chegou a quase 20%, de acordo com dados da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). Em 2019, os CEOs estaduais tiveram 364.440 agendamentos - no entanto, 67.399 atendimentos (18,4% do total) nunca se concretizaram pela falta do paciente, que marca a consulta, mas não comparece.

No ano anterior, o número foi semelhante: 67.644 ausências (19,2%) em relação aos 350.560 agendamentos contabilizados. Os dados se referem a 19 CEOs espalhados pelo interior do estado, que também mostram crescimento no número de consultas realizadas: de 231.841, em 2018, para 233.840, em 2019.

Em Fortaleza, existem seis equipamentos do tipo, sendo três de gestão estadual e três municipais. A dona de casa Maria Regina Gomes frequenta o CEO do Centro há quase sete anos para conseguir atendimento para os três filhos. Segundo ela, conseguir a consulta foi mais rápido do que esperava. “Quando peguei o encaminhamento, me disseram que eu ia passar um ano. Mas, se eu tiver passado 15 dias, foi muito”, relata ela.

Contudo, nem todos confirmam a data correta do comparecimento. A orientação, de acordo com o odontólogo e coordenador municipal de Saúde Bucal da Prefeitura de Fortaleza, José Carlos de Souza Filho, é que o paciente vá a um dos 113 postos de saúde da capital cearense para saber como está o encaminhamento da demanda. Isso porque estratégias de comunicação como cartas, mensagens e ligações telefônicas podem falhar por mudanças de endereço ou de contato.

Fila para atendimento

Enquanto isso, ainda há pessoas que dormem na fila em busca de atendimento não programado. Na segunda-feira (6), uma mulher chegou ao CEO às 3h para garantir uma das 20 fichas para a mãe. Conseguiu a décima. “Se for pra pegar encaminhamento do posto, demora que só”, conta ela, que não quis se identificar. No fim das contas, a mulher não pôde realizar nenhum procedimento porque estava com a pressão alta.

O odontólogo José Carlos de Souza ressalta que, nas unidades básicas de saúde, são realizados serviços como limpeza, obturação e pequenas extrações. Já nos CEOs, são tratamentos encaminhados de canal, cirurgias complexas e, principalmente, próteses dentárias. “É uma demanda reprimida de décadas”, ressalta ele. Um novo centro a ser implantado na policlínica do Bairro Siqueira, em Fortaleza, já deve contar com um laboratório específico de próteses para dar mais vazão à demanda.

Na segunda, no CEO Joaquim Távora, o porteiro Paulo Lopes esperou atendimento para a filha, Ana Esther, de cinco anos, que reclamava de dores de dente desde a última sexta (3). “Acho que é cárie”, arriscou o pai, que saiu do Bairro Vila União e chegou ao local às 9h para a consulta às 9h30. Ele avaliou o serviço como “regular”. Quem qualificou como “bom” foi a dona de casa Sandra Oliveira, que levou o filho Gabriel, de sete anos, para consulta - embora tenham precisado se deslocar do Bairro Bom Jardim.

Conforme o coordenador municipal do serviço, não há como escolher o local de atendimento para evitar imparcialidades nas marcações. Por isso, quem faz a triagem é o sistema de informação, que busca o CEO com a data mais próxima. Sem problemas para a aposentada Maria do Socorro Silva, 67, que, na segunda consulta, constata que “não tem muita demora e nem lotação”.

Depois de obturação e limpeza, ela se prepara para receber uma prótese. “No meu interior, Morrinhos (na região Norte, a cerca de 210 km de Fortaleza), quase todo mundo extrai os dentes cedo. Tem pessoas de 18 anos usando prótese. Até que eu demorei muito”, conta a aposentada.

José Carlos de Souza Filho ressalta que, em tese, 70% do trabalho do profissional de odontologia deveria ser preventivo e só 30% curativo; mas, na prática, os índices são invertidos pela “falta de processo educacional” mais efetivo. Por isso, atualmente, a Saúde trabalha em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (SME) para conscientizar estudantes de escolas públicas sobre a necessidade de cuidados com a saúde bucal.

Fonte: G1 Ceará
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