'A gente passa o luto sem um abraço': familiares de mortos por Covid-19 no Ceará relatam dores do processo da doença

Felipe e Maria Aparecida: a mãe morreu aos 69 anos, após um mês de internação. — Foto: Arquivo pessoal

Óbitos causados pelo novo coronavírus no Ceará já são mais de 300, e os rostos por trás dos números deixam filhos, netos, primos e inúmeros parentes sob o luto em meio à pandemia.

Com ou sem comorbidades, mortes causadas pelo novo coronavírus são repentinas e cruéis. No Ceará, mais de 300 famílias já vivenciam essa angústia, conforme última atualização da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), que informa ainda um total de 6.260 casos confirmados de Covid-19 no estado até o começo da noite deste domingo (26).

O cearense Felipe Kuhn, 35, entrou para as estatísticas da Sesa no último dia 19, quando a mãe, Maria Aparecida dos Santos, morreu aos 69 anos, após um mês de internação pela doença que começou como uma “gripe comum” e evoluiu, dia a dia, em um “processo devastador”.

“Ela começou a apresentar sintomas comuns de gripe antes mesmo do isolamento social [decretado pelo Governo do Ceará em 19 de março]. Só febre, dor no corpo e tosse, não tinha falta de ar. Como tem aquilo de só ir ao hospital se apresentar falta de ar, confiamos. Fomos tratando, mas foi tendo uma piora significativa. Depois de oito dias, a gente teve que ir ao hospital, e nos primeiros exames foi detectada a Covid”, relembra Felipe.

A idosa não tinha doenças pré-existentes, como hipertensão ou diabetes, sendo apenas a idade um fator de risco para o coronavírus. “Era uma pessoa saudável, ativa. Mas depois da internação, foi ladeira abaixo”, descreve o filho.

“A doença é real, tá aí, tirando vidas. Pode ter um recorte de doença pré-existente, de idade… Mas todo dia ela vai tirar uma pessoa, o amor da vida de alguém, de maneira sangrenta. Dói, dói muito. Foi quase um mês de viver na esperança de ir buscá-la. A gente fica vendo vídeo de gente que melhora, e esperando que seja nossa vez. Mas muitas vezes não vai ser. Como não foi no meu caso, como não foi no de milhares de pessoas que não estão se despedindo da família, da mãe, dos filhos. Ninguém tá preparado pra uma dor dessa. Ela é palpável e tá na nossa porta”, detalha Felipe.

Além do peso da perda de “mãe, amiga, conselheira, uma pessoa que contava pra tudo, tudo, tudo na vida”, o bacharel em Direito carrega ainda o peso de vivenciar o luto “sem um abraço, um olho a olho”, por causa do isolamento social.

“A gente não se despede, não pode velar, rezar. Recebe a notícia e tem que enterrar. Parece que você não encerra um ciclo, não tem tempo de entender, processar. Como estive no hospital pra fazer a questão burocrática, tô em em isolamento de novo, longe do meu filho, da minha família. No meu pior pesadelo eu não imaginei passar por isso”, finaliza Felipe.

Ele é filho único e dividia com a mãe a casa, as viagens à praia e à serra, e a companhia do neto dela, de 6 anos.

'Ele poderia ter sido salvo'




Os dias da família de João Paulo Simão Pinto, morto aos 39 anos, em 19 de abril, também têm sido divididos com o luto. Segundo o primo, Roger Cid, 32, João era funcionário de um depósito de gêneros alimentícios e, por isso, não teve direito ao distanciamento físico fundamental para evitar a Covid-19. Outra chance que não teve foi a de um diagnóstico precoce – com febre, tosse, falta de ar e sem olfato, principais sintomas da doença, só ficou internado e foi testado na terceira ida à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Pajuçara, em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza.

“Ele piorou, voltou à UPA e ficou no balão de oxigênio, já muito debilitado. Foi feito um raio-x do pulmão e estava bem comprometido. Não tinha mais UTI em Fortaleza, só em Quixeramobim [interior do Ceará], mas o médico não autorizou o deslocamento, porque seria muito arriscado. Na madrugada de sábado pra domingo, conseguimos leito no Leonardo Da Vinci [hospital do Governo do Estado, na capital], onde ele chegou 4h30. Mas, por volta de 8h15, veio a óbito”, relata Roger.

O resultado do teste rápido, positivo para o novo coronavírus, ainda não foi obtido pela família, que só soube do diagnóstico “pela boca do médico”. A esposa de João Paulo já apresenta sintomas e está em quarentena.

“A morte dói mais porque me parece que a vida dele poderia ter sido salva, se ele tivesse tido a atenção devida desde o início”, pontua Roger, destacando, ainda, outro fator que teria distanciado o primo da morte.

“Quando a gente deixa de ver só número na televisão e passa a ser estatística, fica mais chateado com pessoas que não têm sensibilidade, que dizem que isolamento é uma besteira e que o comércio tem que voltar. No fim, o maior prejudicado sempre é o pobre”, protesta Roger. “O pobre é que vai andar no ônibus lotado, que não tem plano de saúde e vai morrer em escala. Temos que priorizar as vidas.”

O secretário da saúde de Maracanaú, Torcapio Vieira, afirmou ao G1 que “o fluxo do paciente obedece ao perfil de sintomas leves, médios e/ou graves da doença”, e que internações “são solicitadas de unidade básica para UPA” e, depois, “para o Hospital Municipal, por regulação do sistema da rede de urgência e emergência”. “A UPA 24h atende aos pacientes de uma média gravidade; e o hospital, em caso severo respiratório de Covid-19, com 13 leitos clínicos e cinco de UTI”, pontuou. Os protocolos médicos não foram detalhados.

Espera por reencontro




Atendida na rede privada, a aposentada Maria Zelinda Cidrão também integra os registros de óbitos pelo novo coronavírus em Fortaleza. A matriarca faleceu no dia 26 de março, aos 85 anos, sendo o dela um dos três primeiros óbitos confirmados no estado, divulgados dia 31 do mês passado. Filha, genro, neto e outras dezenas de familiares também apresentaram sintomas, mas só quatro foram testados – todos tiveram diagnóstico positivo. A suspeita é de que a família tenha se contaminado em uma festa de aniversário no dia 7 de março, como relata o neto de Zelinda, o publicitário Rodrigo Cidrão, 34.

“Vivi um momento de desespero, ao ver minha família inteira doente. Sou #fiqueemcasa. Quem quer sair saia e veja você como a doença é rápida”, alerta Rodrigo.

“A gente nem consegue identificar onde foi a transmissão. Ninguém tinha viajado ou tido contato com alguém com sintomas. Minha vó, hipertensa, era a mais saudável de todos os que pegaram. E cada um teve um diagnóstico diferente: dengue, pneumonia, H1N1”, relembra Rodrigo, que morava com a avó “há mais ou menos 20 anos”, tendo nela uma “parceirona de tudo, companheira de viagens, cervejinha e caranguejo na praia”.

O enterro de caixão fechado, sem velório e com apenas cinco pessoas da família, foi, para ele, o oposto da ideia de fim: decretou o início da espera pelo reencontro dado como certo. “Quando acabar a pandemia, vou fazer uma tarde de louvor pra vovó. E quando formos à praia, vamos lembrar dela, levantar o copo e brindar aos ensinamentos que ela nos deu sobre resiliência, esperança, amor e fé. A gente sofre pela saudade que projeta de momentos maravilhosos, quando deveria agradecer por ter vivido e rezar pelo dia de estar junto novamente."

Fonte: G1 Ceará
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