Ceará é o estado do Nordeste com mais casos de Covid-19 em indígenas; lideranças denunciam negligências

Uma equipe de saúde indígena esteve na barreira sanitária do povo Tremembé da Barra do Mundaú — Foto: Samuel Tremembé

Estado já notificou 9 casos de Covid-19 em indígenas, o que o torna o estado do Nordeste e quinto do Brasil em número de confirmações.

Segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, o Ceará já notificou 9 casos de Covid-19 em indígenas, o que o torna o estado do Nordeste e quinto do Brasil em número de confirmações. Os dados são do boletim emitido pela Sesai às 17 horas de ontem (7).

Entidades e lideranças indígenas relatam, no entanto, que há subnotificação dos dados e este número não corresponde a realidade.

Segundo dados da Federação dos Povos Indígenas, somente entre o povo Tapeba, na Grande Fortaleza, há pelo menos 8 casos confirmados da doença. O número é semelhante ao total observado em todo o Estado pela Sesai (9). “Há uma divergência de informações entre os pólos-bases com a sede no distrito, em Fortaleza. E existe também uma falha de comunicação neste registro com a base do Ministério da Saúde”, ressalta Weibe Tapeba, assessor jurídico da Federação.

Sistema Colapsado

Weibe denuncia, ainda, que 5 profissionais que atuam na saúde indígena de Caucaia já testaram positivo para a doença. “Estão forçando os servidores que atuam na linha de frente e que já testaram positivo a simplesmente voltarem. Não podemos permitir a possibilidade de transmissão do vírus justamente por quem tem que cuidar da saúde indígena”.

Segundo ele, o sistema de saúde está colapsado. “Temos presenciado uma verdadeira omissão por parte do Governo Federal. Há limitação de máscaras, álcool em gel, luvas para os profissionais de saúde”, avalia. Os Equipamento de Proteção Individual (EPIs) limitam a propagação do vírus. “É uma realidade de diversos territórios indígenas do nosso Estado”.

Em nota, o Distrito Especial de Saúde Indígena (Dsei) Ceará, órgão ligado à Sesai, informou que “o prazo de quarentena para que não haja transmissão do vírus é de 14 dias” e que “após esse período, o profissional está apto a retomar suas atividades sem risco para os pacientes”.

O Ministério da Saúde entende que é necessário este prazo para o isolamento de contaminados, porém, pondera que se outro familiar da casa iniciar os sintomas leves, o paciente deve reiniciar o isolamento de 14 dias.

Questionado sobre os 8 casos positivos, 19 notificados, 5 profissionais com testes positivos e 11 testes realizados aguardando resultado do povo Tapeba (dados repassado pela Federação dos Povos Indígenas do Ceará), o Dsei Ceará não respondeu. O órgão informou, porém, que não há falta de Equipamentos de Proteção Individual ou insumos e testes rápidos para atuação dos profissionais de saúde no Ceará.

“Desde o início do mês de abril já foram enviados 144 frascos de álcool em gel, 7.300 luvas, 345 aventais descartáveis, 4.800 máscaras cirúrgicas e 500 máscaras N95. Este material é complementar ao estoque do próprio DSEI, formado por aquisições próprias e parcerias com outros órgãos. O Dsei dispõe de 580 testes rápidos, sendo 280 enviados pela Sesai e 300 em parceria com o Governo do Estado. A realização dos testes e a divulgação dos seus resultados seguem os padrões preconizados pelo Ministério da Saúde”.

Barreira




Para tentar conter o avanço da doença no território dos Tremembés da Barra do Mundaú, em Itapipoca, interior do Ceará, os indígenas criaram uma barreira sanitária na entrada da aldeia. Após a primeira semana de atuação, eles alegam estar sofrendo ameaças de não aldeados que tentam entrar no território. “Temos enfrentado resistência por parte de pessoas, que se recusam a usar equipamentos de proteção pessoal. Temos recebido ameaças e agressões verbais", lamenta a liderança Adriana Tremembé.

Em nota, a Funai informou que “está ciente da situação e segue de perto o caso”. “O órgão atua em atividades de vigilância, monitoramento e proteção territorial, acompanhando a situação das comunidades indígenas nesse contexto de pandemia, e trabalhando junto a diversos órgãos governamentais.

A Fundação vem articulando ainda uma ação conjunta de apoio à barreira em parceria com a Polícia Militar, com a Guarda Municipal e o com Departamento Municipal de Trânsito de Itapipoca”, informou.

Na manhã de ontem (7), uma equipe de saúde indígena esteve na barreira sanitária para esclarecer dúvidas e distribuir álcool em gel e máscaras de tecido. Também foi aferida a temperatura corporal e a saturação de oxigênio no sangue dos presentes.

Insegurança Alimentar

Outro ponto cobrado de lideranças e entidades ligadas aos povos indígenas é a garantia de segurança alimentar, visto que a renda destas comunidades ficou prejudicada com a pandemia.

Para suprir esta demanda, a Ação de Distribuição de Alimentos a Grupos Populacionais Tradicionais Específicos, realizada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), entregará 9.222 cestas de alimentos ao Estado, em duas etapas de distribuição (cada família receberá duas cestas) - 3.650 famílias indígenas estão na Grande Fortaleza e 1.546 na região dos Sertões de Crateús, totalizando 4.611 famílias beneficiadas.

A entrega será realizada pela Funai e os “produtos serão entregues pelos fornecedores até o dia 14 deste mês”, aponta a Conab.

Além disso, segundo a Funai, kits de alimentos adquiridos com recursos próprios já estão sendo distribuídos às comunidades. “Até o momento já foram entregues 250 kits. Outros 1.700 serão distribuídos nos próximos dias. As cestas passam também por um processo de higienização antes da distribuição”.

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Fonte: G1 Ceará
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