'É muito desafiador': Professores do Ceará apontam desafios na adaptação a aulas online durante pandemia


Transmissões ao vivo, gravações de conteúdos e uso de plataformas virtuais de ensino misturam ansiedade à oportunidade de novos aprendizados para profissionais já experientes.

Diante da pandemia de Covid-19, atividades escolares presenciais estão suspensas no Ceará desde 19 de março, quando foi decretado o isolamento social pelo governo estadual. A princípio, seriam 15 dias até o retorno. Agora, já são dois meses longe, sem previsão de volta – e professores das redes pública e privada precisaram se adaptar a um ambiente completamente virtual, renovando metodologias e redescobrindo formas de transmitir conhecimento.

Alunos da rede pública do Ceará têm ensino domiciliar durante pandemia, mas relatam dificuldade de estudar O movimento de 40 a 50 estudantes numa mesma sala, a firmeza da caneta no papel ao dar o visto no exercício e o olho no olho estão entre as principais saudades do professor de Matemática José Correia da Silva, de 51 anos, docente há 25. O novo cenário traz ainda outras dificuldades.

“A maior [dificuldade] é a inaptidão com os novos recursos. Em todos esses anos, a gente teve só aulas expositivas, no quadro, o máximo que fazia era um trabalho em pdf. Mas, em dois ou três meses, tivemos de nos adaptar a um sistema totalmente novo, de aplicativos e plataformas que eu desconhecia”, relata Correia, que leciona em uma instituição privada e outra da rede estadual cearense.

Segundo ele, enfrentar os desafios tecnológicos tem sido uma oportunidade de se “reinventar e crescer como profissional”. “São muitos passos até fazer uma aula: tenho que ir pro site, baixar um vídeo, improvisar um estúdio, gravar… Os professores que estão começando agora têm mais facilidade. No meu caso, precisei aprender. Às vezes, meu filho de 13 anos me ajuda. As mídias sociais são importantíssimas, mas essa adaptação repentina, sem uma preparação antes, complica”.



Novos caminhos

Para a professora Vânia do Nascimento, 48, que ensina História, Artes e Filosofia em escolas privadas de bairros periféricos de Fortaleza, “todo dia tem sido um leão a ser vencido”. “Por conta da demanda de trabalhar em duas escolas, e até por acomodação, pra mim era mais difícil ficar tentando inovar, me capacitar com essas novas ferramentas. Agora, tudo que é novo foi imposto de repente: entrar ao vivo, gravar aulas online, usar o Google Meet. É muito desafiador”, descreve a docente, que dá aulas há 17 anos – online, há um mês.

“Antes, meu acesso era a provas, e-mails, olhar alguma coisa no Youtube sobre as aulas, pra direcionar links aos alunos. Mas muito superficial, porque as escolas exigem muito o tradicional, o livro, a lousa, a interação presencial. Agora, tenho duas realidades: as aulas gravadas e as ao vivo”, conta.

O processo de mudanças, como Vânia avalia, tem sido “renovador”. “Fico ansiosa, apreensiva, mas tudo o que eu consigo, embora que minimamente, me deixa muito satisfeita. Na semana passada, não conseguia nem falar direito. Mas, com o tempo, fui melhorando. Se eu não pensar que tenho que melhorar, inovar, me refazer, vou ficar pra trás. E não quero isso, apesar de todo o cansaço”, compartilha.



‘Magistério encantador’

A professora de História Mirian Lima, 55, destaca que além do desafio pessoal e profissional das aulas à distância, a responsabilidade de como o conteúdo chega aos estudantes também é maior. “São jovens que usam muito a tecnologia, mas não em prol do próprio crescimento. Se presencialmente, pra nós, é complicado concentrar a atenção de 40 deles, no computador, é mais ainda. Temos feito o máximo, procurado estratégias pra isso”, afirma.

Professora há 20 anos, Mirian ensina em duas escolas da rede estadual do Ceará e define o atual momento como “o mais desafiador até hoje”. para ela, a “vontade de fazer e se doar para a formação de alguém é o que revigora” numa rotina ainda mais sobrecarregada.

“Sento diante do computador por volta das 8h e geralmente saio pelas 21h. Minha geração era muito distante dessa prática: numa escala de 0 a 10, eu ficaria entre 4 e 5 no uso da tecnologia. Porém, como educadora, me defino como eterna aprendiz. Quando isso tudo passar, não seremos mais os mesmos. A tecnologia vai ser um ponto muito marcante dentro da nossa prática”, projeta.



Transformações



A mudança do ambiente presencial para o virtual é ainda mais impactante no cotidiano do professor Alexandre Rocha, 46. Surdo, ele ensina Língua Brasileira de Sinais (Libras) há dez anos no Centro de Referência em Educação e Atendimento Especializado do Ceará (Creaece), que integra a rede de instituições da Secretaria Estadual da Educação (Seduc).

“Libras é uma língua de espaço visual, em que utilizamos mais as expressões faciais e corporais, interagindo com os demais em sala de aula. [Uma das dificuldades é] ter que lidar com vários grupos de WhatsApp, redobrando atenção, reinventando metodologias, tornando as aulas mais leves possíveis, agora que são por videochamadas”, relata.

Apesar dos desafios de lidar com estudantes de distintos níveis de acesso a Internet e tecnologia, da capital e do interior, Alexandre aponta o que o motiva diariamente: “é a empolgação dos alunos, isso me instiga. Ver o interesse por parte dos alunos e que eles estão realmente dispostos a aprender faz com que eu me reinvente cada vez mais nesse momento de pandemia”, sentencia o professor, cujo relato ao G1 foi traduzido pelo intérprete Neto Oliveira, também funcionário do Creaece.



Cuidados

As mudanças impostas pela pandemia favorecem aprendizados, mas também geram sobrecarga e ansiedade em profissionais da educação. É o que apontam os resultados preliminares de uma pesquisa do Laboratório de Estudos em Política, Educação e Cidade (Lepec), da Universidade Federal do Ceará (UFC), que já obteve 5.800 respostas nacionalmente, 950 delas de professores do Ceará. Os dados apontam que apenas 10% deles já faziam vídeos para plataformas online, por exemplo – e que sete em cada dez disseram estar ansiosos ou esgotados.

Cerca de 33% dos entrevistados afirmaram trabalhar de 8h a mais de 12 horas diárias, e quase um terço se envolve em atividades escolares em mais de cinco dias por semana.

Para a pesquisadora Danyelle Gonçalves, professora do Departamento de Ciências Sociais da UFC, a sobrecarga e as preocupações são ainda maiores para profissionais acima de 40 anos. “Eles são imigrantes digitais, tiveram que aprender a lidar com diferentes tecnologias e plataformas que não faziam parte do cotidiano. As novas gerações já são alfabetizadas nisso”, pontua.

Danyelle alerta ainda que, diante de tudo isso, é preciso atenção à saúde mental de quem ensina e de quem aprende. “Uma coisa é uma aula física, com 50 ou 110 minutos, outra coisa são 55 minutos na frente do computador. O processo educacional precisa ser agradável e fazer sentido para todos os atores, tanto alunos como professores. Depois dessa pandemia, muito provavelmente as práticas não vão retornar exatamente como eram antes”, conclui.

Fonte: G1
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