Funerárias de Fortaleza têm aumento na demanda e mudança na rotina de funcionários durante pandemia


Diretora de memorial cita aumento de 50 para 130 no número de sepultamentos por mês na capital cearense.

No Ceará já são 2.251 vítimas fatais do novo coronavírus, em Fortaleza são registrados 1.548 óbitos, segundo dados da Secretaria da Saúde divulgados na noite de sexta-feira (22). Essa realidade da pandemia tem atingindo quem trabalha com a prestação de serviço funerário, que se vê na linha de frente em um cenário atípico, onde tem lidado com um maior desgaste emocional e o aumento crescente da demanda.

De acordo com Patrícia Meireles, diretora do Memorial Fortaleza, a média de sepultamentos da empresa era de 50 por mês. Em maio deste ano, devido às mortes por coronavírus, já são mais de 130 enterros. O aumento já atinge mais de 250% do que normalmente é demandado do cemitério e funerária.

Com números altos de óbitos nos últimos meses, por causa da Covid-19, quem trabalha com o serviço funerário tem lidando com sentimentos, como medo, diariamente. Para o gerente da empresa funerária Memorial Sol Poente, Rodrigo Aragão, esse é um momento totalmente diferente na rotina do funcionários. O gerente que já teve que afastar três funcionários com suspeita de Covid-19, diz que além do aumento da demanda de trabalho, também aumentou o desgaste emocional.

“Tem situações que há um grande desgaste emocional, como uma situação, uma criança de seis anos gritando em um balcão, perguntando pela mãe e a mãe tinha acabado de falecer por Covid. E todo mundo lá ficou, assim, em uma situação abalado né, emocionalmente. Mesmo quem já está acostumado a trabalhar com isso”, conta Rodrigo.

Patrícia Meireles, diretora do Memorial Fortaleza, pontua que é difícil e até assustador estar na linha de frente prestando serviços essenciais. “Tentar prestar um bom serviço numa situação como essa é muito desafiador, porque nós somos seres humanos.”



Dada a situação que oferece um desgaste emocional maior aos seus funcionários, a empresa viu a necessidade de promover rodas de conversas para orientar sobre saúde mental e equilíbrio emocional. “Todo mundo tem seus medos, seus receios, suas famílias”, completou.

Além da preocupação com a saúde mental e física dos funcionários, como uso de EPIs pelos funcionários, a diretora explica que a equipe também foi orientada sobre o trato com familiares, que não podem se despedir de maneira tradicional aos seus entes queridos. “A gente escuta pedido de oração, de reza, alguns versos e tenta acolher o máximo possível”, relata.



Crescente demanda

Fortaleza conta com uma rede funerária composta por cinco cemitérios públicos e doze privados. A capital cearense teve os números de sepultamentos dobrados, entre março e abril, de acordo com levantamento do Sindicato das Empresas Funerárias do Estado do Ceará.

Em 10 anos de empresa, a Memorial Sol Poente também viu os recordes de enterros mensais, semanais e até diários serem batidos durante a pandemia. Para conseguir lidar com a crescente demanda, o local contratou seis novos coveiros. Segundo, Ricardo Carvalho Filho, advogado da funerária, os funcionários passam o dia inteiro fazendo novas covas. “Tá sendo um trabalho que a gente nunca teve.”

Ricardo afirma que ainda é difícil fazer com que clientes entendam que não podem se aglomerar para os velórios e que têm de usar máscaras para entrar na empresa. “A família não se despedir da pessoa é complicado, mas infelizmente temos que seguir com o que está na lei. A gente vive um momento de muita fragilidade”, lamenta.

O Dia das Mães, que aconteceu dia 12 de maio, foi particularmente difícil, já que normalmente diversas pessoas vão até o cemitério para visitar o túmulo de parentes. Por questões de segurança, a orientação foi para que os clientes não se dirigissem ao local.



Fake news



A divulgação de fake news - notícias falsas - também dificulta a prestação de serviço por parte da categoria. A situação acarreta dúvidas na população sobre enterros e procedimentos de notificação de mortes.

“A essência das fake news é conturbar o processo. [O que] temos feito é deixar o cliente ciente de uma forma muito transparente”, diz Patrícia. Ela conta que já aconteceu de pessoas desconfiarem de que os óbitos não aconteceram em decorrência do coronavírus, mesmo sendo registrados como tal. “A gente recebe a declaração de morte do hospital. Só acatamos”, explica.

No entanto, a diretora opina que os órgãos públicos poderiam ser mais claros em relação aos procedimentos e informações. “Se isso fosse feito de forma mais clara, as famílias enlutadas, com dor e estresse, sem dúvida seriam melhores assistidas”, concluiu No dia 30 de abril, o Governador do Estado, Camilo Santana sancionou uma Lei contra Fake News, que estabelece multa para quem divulgar, por meio eletrônico ou similar, notícias falsas sobre epidemias, endemias e pandemias no estado Ceará.

Fonte: G1
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