Fortaleza tem redução de até 58% em poluentes do ar durante isolamento social, aponta estudo


Monitoramento feito pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Seuma) e a Universidade Federal do Ceará (UFC) analisaram fases distintas da quarentena na cidade.

Com menor circulação de veículos nas ruas de Fortaleza, devido ao isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19, a concentração de poluentes no ar caiu até 58%, aponta pesquisa realizada pela Secretaria Municipal do Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC). Os estudiosos indicam que a diminuição da frota é o principal fator para a melhora da qualidade do ar.

A redução é observada desde o dia 20 de março, quando entrou em vigor o decreto governamental de isolamento para conter o avanço do novo coronavírus no Estado e evitar a sobrecarga das unidades de saúde. Na pesquisa de avaliação da qualidade do ar, com coletas entre os dias 23 de fevereiro e 11 de maio, houve redução na concentração de cinco substâncias: o monóxido de carbono (CO), em 23,7%; os óxidos de nitrogênio (NOx), em 46,5%; o NO2, com redução de 28,2%; as partículas inaláveis – PM10, com menos 35,2%; e as partículas inaláveis – PM2,5, reduzidas em 58%.

Já o ozônio (O3) teve redução de 1,7% e, destoante dos demais, o dióxido de enxofre (SO2) teve aumento de 4%. Rivelino Cavalcante, pesquisador e professor da UFC, associa essa observação à combustão feita por ônibus e uso de carvão em processos industriais, respectivamente. “A frota de ônibus ainda está muito intensa, e eles têm muito biodiesel - 20% colocado no combustível. Então essa queima está liberando os precursores do ozônio”, explica.

Tanto pesquisadores do Labomar quanto do Departamento de Transportes (DET) da UFC participaram do estudo. A estação de controle da qualidade do ar foi instalada no Bairro Cajazeiras, próxima a vias com intensa movimentação na cidade, como a BR-116 e as avenidas Paulino Rocha e Oliveira Paiva.

A titular da Seuma, Águeda Muniz, reforça que dados obtidos por meio da estação constataram que “o ar melhorou bastante”. Novas estações devem ser instaladas em vias de grande circulação no entorno de terminais de ônibus da capital cearense.

“O isolamento social nos fez assumir muito a tecnologia, o home office, a redução do deslocamento. As pessoas vão ter mais consciência. Não acredito que a gente retome a poluição em médio e longo prazos”, aponta.

Impactos

Rivelino Cavalcante acrescenta que em regiões da cidade onde há maior densidade imobiliária, o ambiente possui maior dificuldade para dispersar os poluentes e, assim, fica favorecida a propagação de infecções. “O vírus precisa de um suporte, justamente partículas, saliva e fluidos orgânicos. E como ele tem um tamanho muito pequeno ele fica suspenso no ar. Se não tem uma forma de dispersar isso, ele fica presente lá”, pontua.

O otorrinolaringologista Paulo Manzano explica que essas substâncias podem irritar as mucosas do corpo humano e favorecer o adoecimento. "O aumento de poluentes alérgicos, no ar que a gente respira, aumenta as chances de infecção. Então, esse ar mais puro que a gente está tendo agora, associado às crianças não indo para a escola e às outras pessoas em casa, tem menor número de infecção e de transmissão”, ressalta.

Ele indica que o uso de máscaras deve ser adotado mesmo após a pandemia para evitar a propagação de outras doenças.

Já para a integrante do Instituto VerdeLuz, Beatriz Azevedo, 26, o período deve gerar reflexões sobre hábitos inadequados, como uso excessivo do carro. “Se a gente quiser realmente que a cidade tenha áreas mais limpas, que a gente passe a respirar melhor e impactar menos o planeta com as nossas atividades, a gente precisa prever essas mudanças de forma estrutural e a longo prazo”, destaca.

Perceber as transformações na natureza com a redução do impacto humano é motivo para cobrança por formas mais sustentáveis de transporte e geração de energia, como coloca a ambientalista.

“A natureza é capaz de se regenerar, o céu é capaz de ficar mais limpo. Que a gente guarde essa memória para quando voltarmos às atividades para promover as mudanças que a nossa sociedade precisa para ser mais justa e ecologicamente equilibrada”, conclui.

Fauna e flora

Os ares também melhoraram para as vidas vegetal e animal. É o que tem se observado nas 26 Unidades de Conservação (UCs) da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), segundo o articulador Leonardo Borralho. Com a adoção da restrição de acesso a essas áreas, como os Parques Ecológico do Cocó e Estadual Botânico do Ceará, as transformações são visíveis.

“A natureza vai se regenerando. Nas áreas onde havia trilhas, antes pisoteadas, a vegetação está repovoando. As espécies da fauna têm menos interferência externa, de poluição sonora, de afugentamento causado pelos seres humanos. Isso foi bom pra elas, é uma forma de terem sossego maior”, pontua Borralho, revelando que novas decisões sobre a preservação ambiental têm sido motivadas por esse novo período.

“O Parque do Cocó funcionava de segunda a segunda. Estamos avaliando fechá-lo durante, pelo menos, um dia na semana”, comenta.

Desvantagens

Se o isolamento favoreceu em alguns aspectos, prejudicou em outros, como no aumento da produção de lixo. Os números, ainda preliminares, expressam um crescimento de até 1 tonelada na coleta de resíduos sólidos em Fortaleza, no período de dois meses, segundo o coordenador especial de Limpeza Urbana, Albert Gradvohl. Em março e abril de 2019, foram coletadas 116,1 toneladas na capital. Já neste ano, foram 117,9 t no período.

Os resíduos influenciam ainda em outro indicador: a poluição hídrica. A coleta de dados sobre mares e rios cearenses, porém, está suspensa devido ao isolamento social, de acordo com Gustavo Gurgel, gerente de análise e monitoramento da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace). “Historicamente, as praias ficam mais poluídas, porque a população continua jogando lixo e matéria orgânica nas ruas. Com a chuva, isso chega ao litoral, assim como as redes clandestinas de esgoto, usadas de forma mais intensa”, declara.

O professor do Instituto de Ciências do Mar da UFC (Labomar), Marcelo Soares, reitera o impacto negativo do esgoto lançado ao mar e da falta de dados atuais sobre questões hídricas, mas aponta que o aumento da demanda da rede de esgotamento, por outro lado, deve favorecer estudos sobre a Covid-19. “O teste em massa é muito caro, e só as pessoas sintomáticas fazem. Mas o vírus no esgoto vem tanto dos sintomáticos e dos assintomáticos, e vamos fazer um estudo para saber quantas pessoas estão infectadas em determinada região, pela concentração do vírus no esgoto”, destaca. Os primeiros dados devem ser consolidados em cerca de um mês.

Coronavírus no Ceará

O Ceará ultrapassou, neste domingo (31), a marca de 3 mil óbitos por Covid-19 e tem 48.489 casos de Covid-19. Agora o estado contabiliza 3.010 mortes em decorrência do novo coronavírus, conforme atualização da plataforma IntegraSUS, da Secretaria da Saúde (Sesa), às 17h23.

Fonte: G1
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